Sunday, September 28, 2014

depois da praia um caldo de feijão

 
 
O interfone tocou. Estava sozinha em casa, cansada de tentar seguir o caminho do outro, e seu pensamento não teve oportunidade de tentar adivinhar quem seria àquela hora. Deixou as cobertas espalhadas na cama, daquele jeito que só deixava se muita importância tivesse qualquer outra coisa que não a desarrumação, causa de uma das suas manias responsáveis pela sua personalidade.

- Quem é?

- Arnaldo.

- Arnaldo?

- Ué, não lembra de mim?

- Lembro – voz meio arrastada enquanto apertava o botão que abria a fechadura.

Encontraram-se ainda na varanda. Ela vestia uma de suas camisolas de seda. E vestia uma expressão surpresa, mas impossível de disfarçar o sorriso que – mesmo com os lábios cerrados – seus olhos entregavam.

- É claro que eu lembro.

- Eu sei que você lembra. Luíza está aí?

- Não. Estou sozinha.

- Ah...

- Desculpa.

- Pelo quê?

- Sei lá.

- Então por que pede desculpas?

- Ah, é que...

- Porque você é assim né?

- Não, é que...

- Não, é que você é assim mesmo. Eu sei.

- Sei lá.

- Bom, eu não tenho nada a ver com qualquer coisa que esteja acontecendo entre vocês. Porque, venhamos e convenhamos, amar é reconhecer os defeitos né?

- Não te entendo.

- Eu o amo, ué. Mas... eu gosto mais de você, sabe?

- Quer um copo de coca-cola?

- Só se for da Luíza.

- É dela mesmo.

- Deixa que eu pego.

- Não, eu pego.

- Olha, não precisa querer me agradar.

- Mas eu nã...

- Eu sei, eu sei. Você sempre foi assim comigo. Mas agora não precisa.

- Eu sei, desculpa.

- Para de pedir desculpa.

- É que...

- Não. Olha só: eu não vim aqui forçado, eu não vi aqui escondido, eu não vim aqui esperando desculpas ou qualquer outra coisa de ninguém. Eu vim aqui encontrar a Luíza.

- Ah, agora eu entendo.

- Não, você não entende.

- É, eu entendi errado na verdade.

- Também não, você entendeu perfeitamente certo.

Ela tirou os olhos dele. A piscina de plástico já castigada pelo sol tornou-se seu foco, inutilmente utilizado como uma tentativa para demonstrar que se fazia entender. Ela não entendia, na verdade. Ele, agindo pela primeira vez na vida como o homem que pretendia se tornar, entendia o fato de ela não entender. Ele sempre fora tão pró hierarquia que desafiar seus superiores naquela situação era arriscar demais sua lealdade. Mas ela não sabia que aquela era a primeira oportunidade de ele demonstrar que lealdade se deveria ter àquelas pessoas que nunca tiveram qualquer dúvida sobre a pessoa que eram – e até quem poderiam ser. O amor tem suas diferenças. A lealdade não. Isso é inerente à pessoa.

- Sabe o que é?

- O quê?

- Tenho receio de trazer mais indisposição para eles.

- Indisposição é eu ter que escolher um lado entre duas paredes do meu quarto.

- Como assim? Vão pintar seu quarto?

- Para de se fazer inferior mudando o assunto. Pergunta o que meu quarto tem a ver com isso ao invés de preocupar-se mais com meu próprio quarto por gostar mais de mim que de você.

- Oi?

- Parece ridículo, né? Eu chegar assim, do nada, e ainda ter a ousadia de dizer que você gosta mais de mim que de você.

- Er...

- Tá vendo? Ao invés de revoltar-se, você se envergonha, se acovarda e não me manda tomar no cu como deveria ter feito quinze segundos atrás.

- É que...

- Não, não é porque você tem medo de trazer mais indisposição para ninguém.

- É porque eu gosto de mim sim.

- E doeu dizer isso para mim né?

- Não.

- Não?

- Não.

- Eu te amo, sabia?

Ela deixou a piscina de lado e fitou as lajotas da área de serviço.

- Não precisa ficar acanhada.

- Eu não estou acanhada.

- Eu vim aqui encontrar a Luíza, sabe? Mas...

- Mas...

- Mas no fim das contas acho que eu vim aqui encontrar você mesmo.

- Será?

- Agora me escuta. Tem algumas coisas que eu preciso te dizer. Agora, anos antes mesmo, porque pode ser que eu lembre tardiamente. Não que tenhamos partido precocemente para outro plano, mas tardiamente quando eu tiver mais receio que coragem em expressar verbalmente coisas que são necessárias serem ditas.

- Com...

- Só escuta. Fica assim mesmo, de cabeça baixa. Não tem problema. Isso não me faz te ver humilhada. Isso me faz te ver ainda mais com esses olhos cheios de amor – ela olhou-o rapidamente, baixando a vista tão logo percebeu que ele tinha os olhos nela. Sim, cheios de amor. Eu não posso tomar partido, tentando parafrasear Cazuza, de corações partidos, sabe? Não posso e nem devo. Isso vai me servir muito lá na frente. É isso que alguns amigos vão fazer comigo e eu só vou entender porque estarei maduro o suficiente para isso. Esse momento, esse encontro tão espontâneo de hoje vai ser o pilar mais firme de todos, por ser o primeiro, responsável para que eu possa me reerguer. Daqui uns anos você vai, sem saber, tornar-se minha irmã dividindo apenas uma mínima parcela de sangue. Porque vai ser a primeira pessoa a me fazer entender que irmandade não surge apenas pela genética, mas por gestos e palavras também. Você vai ser um diário sem cadeado, mas só aberto quando comigo: cúmplice discreta de questionamentos, angústias, alegrias e descobertas. Se eu tomar partido agora, do jeito que esperam que eu tome e não da forma como eu acredito que se deve tomar, lá na frente eu não vou poder olhar para meu passado e sentir orgulho por ter aprendido tão cedo que estar em cima do muro pode ser muito mais justo que escolher um lado para ficar. Se eu escolher a incondicionalidade do amor à certeza da confiança, sete anos à frente eu posso não estar vivo e ter deixado passar a oportunidade de descobrir que o que é verdadeiro, pode passar o tempo que for, continua sendo verdadeiro. E não vou olhar para trás, orgulhoso desse momento aqui, desse encontro aqui que foi a primeira vez em que isso aconteceu e eu ainda nem percebi.

- Eu...

- Você, nada. Você só escuta hoje.

- Eu nem sei o que dizer. Tem caldo de feijão, quer?

- Macaco quer banana? Enquanto você prepara aí, eu lhe digo: primeiro você tem que dizer para si mesma que não está gorda. E olhar-se no espelho todos os dias, ao acordar e antes de dormir, para dizer àquele reflexo que não tem ninguém mais jovem, linda e disposta como você – ainda que não acredite nisso, a repetição ajuda no costume. E acostumar-se, por vezes, é suficiente para manter-se numa situação, não? E você tem que parar de sentir pena de si mesma também, sabe? Depois do espelho não se enrole nas cobertas como que precisasse de segurança. Faça dos seus próprios braços sua maior prevenção ante o perigo de qualquer impacto emocional. Se a mente é capaz de tantas coisas, porque seu corpo não pode ser? Por fim, não deixe que ninguém te desmereça ou faça sentir menos do que a mulher que és. Fique em silêncio, que seja, mas deixe os ouvidos tão distraídos quanto nos domingos em que se precisa ir ao mercado. O peixe mais belo quase sempre é o peixe mais caro e sempre vai ter alguém querendo pechinchar. E eu sempre vou estar logo atrás, no último lugar da fila, para manifestar-me sempre com um valor maior se achar que vale à pena. E você vale à pena.

- Quer dizer que eu sou um peixe? – ela levou a xícara de caldo até suas mãos.

- No caso você seria uma lagosta.

Ele riu, fazendo-a rir espontaneamente pela primeira vez desde o momento em que tocara o interfone. Ela se levantou de braços abertos, sendo recepcionada pelos braços abertos dele, envolvendo ambos no primeiro abraço depois de muitos meses de desencontros propositais. Tinham se visto pela primeira vez quatorze anos antes. E depois de todos aqueles anos foi naquele momento em que se conheceram verdadeiramente. Ele porque já sabia quem ela era. Ela porque teve certeza do homem que sabia que ele seria.

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