Wednesday, November 28, 2007

hoje

não fosse pela chuva, hoje seria mais um dia comum.
teríamos os pássaros entoando alegres canções por entre as árvores,
e o suor quente escorrendo pelo rosto cansado dos transeuntes.

não fosse pela chuva, eu talvez não tivesse lembrado.
mas antes do céu desabar eu não esqueci.
e não lembrei, porque já sabia.

é difícil. tanto tempo.

diálogo I

- tu tá bem?
- to
- ... - cara de quem finge que acredita
- e tu tá bem?
- to, e você? - deu pra sacar a sinceridade
- então estamos ótimos. - será?

certas pessoas que entram na vida da gente tão rapidamente, às vezes passam a nos conhecer de uma forma que nem nós mesmos entendemos direito. ou às vezes nós realmente deixamos transparecer demais como nos sentimos. eu não gosto de estar nessa segunda opção (apesar de algumas vezes estar), por isso se torna fácil (considere mais um 'às vezes' aqui) dizer sempre que está tudo bem. aprendi com a vida.


o que aflige?
aquela estrela que insiste em brilhar mais no céu.
e a vontade de sorrir apenas com os olhos.

indagações I

e para onde foram as cores daqueles quadros em preto e branco?

Tuesday, November 27, 2007

solitariamente II

Eu já quis fazer isso. Eu também. Mas às vezes eu me sinto tão incompetente. Não pode pensar assim. É totalmente involuntário, se me dizem algo que me faça sentir inferior, já fico mal. Nesse ponto eu sou diferente, tento fazer a balança pesar mais pro lado de cá. Eu percebi isso algumas vezes. E eu sinto quando você começa a cair. Sente? Claro, e eu tenho que fazer o maior esforço pra não deixar, senão vou junto. Então você se interessa por você, não por mim. Sou egocêntrico. Egoísta. Pra mim é a mesma coisa. Só muda a intensidade da palavra e eu prefiro a minha. Todos nós somos bons e ruins. Eu sou bom. É nada. Sou. Eu e você somos na mesma proporção, não há o que questionar. Idiota.

Sunday, November 25, 2007

Wednesday, November 21, 2007

(...)

em meio a tantas reticências
um dilema
dentre tantos parênteses
infinitas idéias

encantam-se os homens pelo sorriso
e pelo olhar
olhos de ressaca
emoção que contorce cada pêlo do corpo

arrepios
calafrios
num caso de amor com as palavras

poético
preciso
e tão
tão eloqüente nas suas incontáveis suposições

apenas uma janela
com uma paisagem maleável pela hora do dia.
grades? grades.
e nem suas mãos por elas passavam.

uma única cadeira,
um resto de colchão,
uma privada. ao qual talvez não pudesse assim ser chamada.

e dor, muita dor.
somada ao arrependimento
de ter sido quem um dia fora.

Tuesday, November 20, 2007

solitariamente I

Será? Não, mas não tem como. Eu quero. Sem querer. Entende? É. Difícil de explicar. Eu sei. E quando você sabe o que quer, mas não sabe se deve querer? Ih, mais complicado ainda. Pois é. Acaba se tornando mais complicado do que parece né? É. Sei mais ou menos como é. Eu prefiro me manter aéreo. Acha melhor? Nem sei se é melhor. Melhor não é, porque vai ficar fugindo e vai continuar lá. E o que me aconselha? Não sei. Eu sou você também. É né? Podemos pensar diferente, mas no fundo nossas conclusões são iguais.

Saturday, November 17, 2007

Cansaço

À noite sentia o peso do dia que passara. E, ao lembrar que no seguinte seria do mesmo jeito, via seu rosto contorcer-se em frente ao espelho. E odiava espelhos.

Espelhos lhe deixavam ainda mais cansado. Percebia o tempo passar pelo seu corpo e preferia achar que não envelheceria nunca. Por isso não olhava a si mesmo por fora. Suas análises pessoais sempre se referiam ao seu eu interior. E isso também o cansava.

Os cadernos em que escrevia já não tinham mais páginas. Escrevera tanto, tanto e mais um pouco de tanto, que suas mãos estavam calejadas. E cansadas.

E muitos dias. Passaram. Voltaram coisas que não existiam mais. E o medo. Tensão pela falha. Suas forças sendo consumidas. E o cansaço o consumindo.

Monday, November 12, 2007

Tempo

- Não passa, Pedrinho. E quanto mais você ficar aí, mais vai parecer que demora.

Mas ele não ligava, e continuava em frente ao relógio preso na parede no centro do corredor. Ele queria sentir o tempo passar.

- Como assim que o Tempo passa e eu nem vejo? Quer dizer que enquanto eu to parado, ele vai passando e eu nem sinto?

Achava incrível essa habilidade do Tempo - com 't' maiúsculo, porque pra ele tempo era gente grande e tinha nome próprio - de passar e ninguém ver, ouvir ou sentir. Era curioso. E não achava possível que alguém tivesse o poder de passar pela gente ou levar embora e trazer tanta coisa ao mesmo tempo.

- Deixa de ser bobo, Pedrinho. Você nunca vai sentir o tempo passar, porque ele não passa pra você sentir.

Mas ele era insistente. Eles. Tanto o Pedrinho quanto o Tempo do Pedrinho que insistia em passar sem que ele sentisse. E passou tão de repente que quando Pedrinho deu por si, já tinha cabelos grisalhos e o rosto envelhecido pela idade que o tempo havia lhe dado sem perceber.

- O Tempo passou. E eu nem senti. E enquanto eu esperava sentir, ele passou correndo tão rápido que quando eu vi já era tarde demais.

Saturday, November 10, 2007

O menino dos pés descalços

Costumava andar descalço, sem se preocupar muito com frieiras no pé. Chutava as pedras que rolavam com satisfação. E sorria. Gostava de sorrir o sorriso que vinha no rosto.

Até que um dia choveu. Seus pés descalços ficaram molhados. E perdeu o sorriso de vista. Mandou-o embora e não soube pra onde ele foi. Denorteou-se.

Ficou ignorante, desconcertado e se tornou passivo à tudo aquilo que ouvia. Faziam dele gato e sapato, mesmo que tivesse pés descalços.

Os ventos sopraram e levaram-no embora. E vinham ventos de todos os lados, cortantes, maldosos, felizes, com desespero. O menino dos pés descalços foi desaparecendo até que virou nada.

E já não tinha como se desesperar. Pôde sorrir de novo.

Friday, November 09, 2007

Já havia sido Luís e Fernando, ou os dois ao mesmo tempo. Mas cansara daqueles nomes e ficou como Lucas. Ainda quis se chamar Augusto dos Anjos, mas já era nome de poeta e não tinha graça. Se bem que era poeta, mas, se por isso fosse, que o chamassem de Vinícius. Um dia perdeu-se em meio a tantos nomes. Confundiu-se e não sabia mais quem era. Seus dias foram chegando ao fim e ele sabia que não aguentaria muito tempo. Decidiu que precisava se encontrar. Pelo menos uma última vez precisava de um nome. Queria coragem, força, braveza. Queria nome de rei, para morrer dignamente. E foi escrito Artur em sua lápide. Era assim que todos lembravam dele.

Vitrines

Passava todos os dias por aquela rua.
Olhava de um lado para o outro, encantada.
Seus olhos brilhavam para cada objeto novo que via.
Porque sabia de cor o que era velho e o que era novo.

Sorria para um ou outro vendedor.
Principalmente aqueles que ajeitavam os manequins.
E deliciava-se ao som de bonecas falantes,
cujos sons se repetiam por toda a rua.

Não comprava nada, só desejava.
E, pra ela, não havia nada melhor que o desejo:
Preferia não ter e querer pra sempre,
do que ter e não querer mais.

Thursday, November 08, 2007

Eram Felipe e Leonardo. Eram os nomes dos dois. Aqueles dois com quem eu convivi quase que por toda a minha infância. Foram embora. Eu devia ter uns oito anos quando me deram o primeiro tchau. Mas ainda voltavam. Às vezes.

Voltavam sem avisar. Da mesma forma que iam embora e nunca diziam nada. Talvez me vissem já com outros olhos. Como se os tivesse esquecido. Mas não há como. Foram meus amigos. E por tantos anos.

Ainda lembro que, mesmo sem vê-los, brincava de esconde-esconde. Conversava sobre todos os questionamentos de minha vida tantas vezes solitária. Ficava horas embaixo do sofá da sala dividindo minhas histórias. E eles lembram? Ou será que eu os esqueci?

*inspirado no texto Gabriela

E de repente tanta coisa aconteceu

Houve uma proliferação de blogs. De repente olhei a internet e haviam blogs. Vários blogs. De conhecidos, de desconhecidos. Voltaram os diários virtuais, o mundo imaginário realista da internet. Onde você é quem é (ou não), mas nem todos que o leêm acreditam - e mesmo assim se divertem.

Não que eu tenha sido maria-vai-com-as-outras, afinal esse mundo virtual me conhece desde que eu tinha uns doze, treze anos - nessa época eu talvez tenha sido sim -, mas sempre há a necessidade de alguém ler o que escrevemos. E, principalmente com o amadurecimento, o teor dos textos virou outro e o interesse em escrever também.

Mas havia parado. Parado de escrever muito. Os blogs sempre existiram (Esse, por exemplo, existe desde o começo do ano), só não havia atualização.

E agora eu me vejo rodeado deles, vários amigos criando - ou simplesmente colocando aquelas idéias escritas à mão na internet. E o que fazer? Resolvi escrever mais, publicar mais as coisas por aqui. Agora terei leitores, nem que apenas cinco ou seis, pois afinal é legal escrever e ter opinião sobre aquilo que escreveu. Pelo menos comigo é assim.

Sejam bem vindos mais uma vez a esse meu mundo "particular". E até o dia em que ele falecer novamente.