Sunday, August 31, 2014

sem adeus

“...Ontem queria ter estado com você
Sei que faria o teu sorriso aparecer
Mas hoje de manhã eu li suas palavras
Foi hoje de manhã, eu preferia nem ter acordado
Levantei e tomei o meu café
Aí o telefone tocou
Hoje de manhã tudo mudou...”
Os Descordantes - Hoje de Manhã

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Acordei ainda tonto. Olhei para o despertador ao lado da cama e reconheci meu quarto, mas a memória ainda fraca não me deixava lembrar como havia chegado ali. Aquelas horas gastas no bar da esquina de casa trouxeram à tona um rapaz que, principalmente pelo fato de você odiá-lo, eu faço o possível para manter enclausurado dentro de mim. Mas sua ausência na noite anterior não me permitiu controla-lo. Já iam para duas horas de espera desde nosso último contato por telefone e dois copos de suco de laranja não pareciam ser suficientes para me distrair enquanto você chegava. E, depois de vencer o receio em te ligar mais uma vez, sua voz na caixa postal era o que faltava para eu suprir minha vontade e pedir uma dose de uísque.

Eu ainda acreditei que você pudesse aparecer. Arrumei todas as desculpas possíveis para corroborar seu atraso, como eu sempre costumo fazer antes de deixar que a decepção me domine. Lembro bem de dizer ao barman, quando aconselhado a desistir e ir pra casa depois de me abrir com ele, que você tinha me dito que estava com saudades e isso era suficiente para que eu continuasse ali a te esperar. Se você não disse que não iria, é porque ainda havia uma mínima possibilidade de aparecer. Mas minha consciência ia se esvaindo a cada dose daquele quinze anos que eu entornava na garganta. E a última coisa que me lembro, antes de abrir os olhos e dar de cara com meu despertador, é ignorar a mensagem que você me enviou por volta das três da manhã.

Hoje, ainda meio tonto, levantei da cama e segui para a cozinha. Um copo de água gelada, algumas bolachas e um iogurte foi tudo o que aquela dor de cabeça incômoda que se apossava gradativamente de mim permitiu que eu ingerisse. Ainda bem, porque dali alguns minutos eu não conseguiria ingerir mais nada. Enquanto ensaiava se lia ou não sua mensagem, percebi um bilhete em cima da mesa. Eu ainda não lembrava, mas ali o barman da noite anterior me garantia ter voltado para casa em segurança. O P.S. ao final me aconselhava a te deixar ir. Acreditei que ler a mensagem pudesse me fazer ter coragem de conseguir tal feito. A cada palavra meu peito doía mais. Eu não acreditava que você estava se despedindo de mim através de uma mensagem. E, afinal, ia para onde?

Antes que pudesse digitar seu número para perguntar, o telefone tocou. Não sei se era a dor de cabeça, mas parecia estar mais alto que de costume. Nenhuma das desculpas que eu inventara na noite anterior chegava aos pés da realidade que ensurdeceu minha audição. Via suas publicações nas redes sociais e me incomodava como você conseguia estar tão bem, sempre rodeado de várias pessoas e com sorrisos no rosto. Mas eu não sabia. Eu sequer cogitei a possibilidade de ir até sua casa e forçar esse encontro depois de tantos meses. Eu não imaginava que, ao contrário do que pensava, você seguia por um caminho escuro e solitário. A dor por não saber do seu destino só não foi maior do que a que senti quando aquela pessoa do outro lado da linha o revelou para mim. Porque você já não estava mais aqui para fazê-lo por si.

agregada


Eu já tinha um círculo meio fechado de amizades. Ainda que conhecido como o rapaz que faz amizade fácil, não era de meu interesse ter um círculo de confiança tão extenso como anteriormente eu acreditava ser necessário. Eu estava bem do jeito que as coisas estavam. Eu já tinha aqueles que considerava meus melhores amigos. E não cogitava deixar que ninguém mais ocupasse aquele espaço. Não existia mais poltrona vaga. Mas aí você sentou no chão, pouco antes que um daqueles que se prostrava na primeira fila a fizesse aceitar o convite de dividirem a mesma poltrona.

Eu já estava acostumado a lidar com a típica rejeição por parte daqueles que estavam ao meu lado e, de repente, tiravam alguns minutos do tempo comigo para ter mais deles com quem acreditavam ser sua alma gêmea. Mas a forma como você sentou humildemente no único lugar que parecia disponível fez com que, pela primeira vez, eu não me sentisse um mínimo sequer rejeitado. Eu não sei se é isso que chamam de amor à primeira vista, mas o fato é que, com todo aquele jeito marrento que todos conheciam, você era dotada de uma aura tão enigmática, mas ao mesmo tempo completamente transparente, que eu cedo passei a amar você.

Eu me apaixonei primeiro. Não de um jeito que te oferecesse flores e cafés da manhã. Ou que te enviasse mensagens melodramaticamente românticas. Eu me apaixonei pelo seu jeito doce, por toda aquela parte sua que alguns acreditam ser um enigma, mas que é sua verdadeira face. Essa que só quem você realmente acredita merecer é que pode ter conhecimento dela. Eu me apaixonei porque ver este rapaz ao teu lado feliz é uma das coisas que mais me dão sentido à vida. Eu me apaixonei porque, quando eu menos esperava, você surgiu na minha vida sem pedir licença e tomou conta de um espaço sem fazer questão de qualquer cerimônia.
Eu poderia dissertar parágrafos e parágrafos para falar do quão bem você me faz sentir e o quanto você me faz ter fé em mim mesmo, mas acredito que um diálogo já foi suficiente para entender que, mesmo diante do fato de eu estar disposto a perdoá-la por qualquer ‘ausência’ sua, você ainda assim me promete que não existirá essa palavra em nosso vocabulário. E, ainda que consciente de que a cada minuto que passa o mundo já é um novo mundo, eu realmente consigo acreditar. Porque eu te olhei nos olhos. E eu quis chorar. Num momento desse as lágrimas não são dedicadas apenas à tristeza ou solidão. Num momento desse, pelo menos as minhas lágrimas, decorrem do fato de se perceber querido, de se sentir amado.

Eu não vou te prometer o mesmo. Não por má vontade, mas por fraqueza. Nessa matéria eu levei bomba no segundo grau. E carreguei como trauma até boa parte do caminho que tracei até aqui. Mas eu posso te prometer o seguinte: desde que te conheci, desde que eu te dei um espaço onde você nem se preocupou se já existia ou não, eu te fiz também parte minha. Eu te fiz parte de toda e qualquer coisa que eu possa fazer e ter orgulho de mim mesmo. Você pode ter se agregado, mas é como se o tempo nos fosse tão dedicado que te fez raiz em mim. Se te arrancarem daqui, um pedaço meu morre. E eu não quero morrer tão breve.

Eu já tinha irmãs. E algumas melhores amigas. E algumas conhecidas que, mesmo não chegando ao nível de amizade como outras, conseguiam extrair de mim o melhor que eu podia ser. Você era minha colega de trabalho. Conseguia no palco o que eu conseguia com a escrita: existir. Não exatamente pros outros, porque, mesmo que isso interesse, não é estar na mente deles que mais ansiamos. Ao fechar os olhos, como te vi diversas vezes fazer, a gente não só aprimora os outros sentidos. É meio que como se, na verdade, passássemos a fazer mais sentido para nós mesmos. Hoje você faz mais sentido pra mim. Se tornou minha amiga. Converteu-se em uma das melhores. E merecidamente se tornou minha irmã.

Thursday, August 28, 2014

vocabulário alheio do autoconhecimento


com colaboração de Jean Silva.

  
Abraço. Paz. Livro. Sonho. Vaidade. Ego. Decepção. Amadurecimento. Preconceito. Desconhecimento. Música. Companhia. Vontade. Concretizar. Justiça. Virtude. Vida. Família. Dinheiro. Investimento. Poder. Distância. Segredo. Responsabilidade. Morte. Vida. Beleza. Capa. Competição. Aprimoramento. Esperança. Eterna. Brasília. Eu. Universidade. Ufac. Medo. Solidão. Política. Decepção. Sexo. Amor.