Wednesday, August 27, 2014

quando nasce uma estrela


Ainda ontem você era menina moça. Desfilava entre os dias em que se construiu sua história com uma destreza quase nunca reconhecida em tantas outras que a mesma idade tinham. Por um bom tempo fez dos movimentos do balé seus passos para passar despercebida aos meus olhos. Sabia, mesmo inconscientemente, do lugar que ocuparia no pedestal que eu carrego diariamente comigo, mas foi tão temperada de humildade que tentou se manter fora de foco o quanto pôde. Vez ou outra burlava a vigilância, arriscando tudo para poder tentar sentir um pouco o gosto da tão famosa liberdade de que tanto ouvia falar, mas que nunca havia se deixado envolver. Porque sabia, bem lá no fundo, que tal gosto tão escandalosamente explanado ao seu redor não era puro. E se era pra ser livre, que fosse puramente livre.

Ainda ontem você era menina moça. Tinha espaço reservado e garantido no meio do salão, mas que poucas vezes foi utilizado. Precisou estar lá no centro para perceber que preferia mesmo ficar no canto, vizinha do rapaz que servia as bebidas. Às vezes ser coadjuvante traz muito mais benefícios que ser atriz principal. No fim das contas era muito mais divertido assistir que estar à frente daquele espetáculo de cujo elenco você um dia almejara fazer parte. Foi assim que, observando nos outros aquilo que não condizia com seus anseios, você aprendeu como era muito mais fácil evitar algumas atitudes do que ter que lidar com as consequências delas.

Ainda ontem você era menina moça. Destruía alguns sonhos em prol do benefício alheio, porque acreditava que sua felicidade era inerente à felicidade dos outros. Conseguiu adquirir uma habilidade em lacrimejar para dentro enquanto sorria com o canto dos lábios, porque sabia que, ainda que se forçasse insistentemente a não permitir-se demonstrar, seu sorriso era carregado de poesia. Essa coisa de não deixar-se acreditar em si mesma é algo que há muito te acompanhava, mas pelo menos já se fazia visível o quanto você se orgulhava do próprio sorriso. Não que você tenha deixado de lado a modéstia e se tornado presunçosa. Você apenas percebeu que sorrir também podia fazer bem para você mesma. E isso é poesia.

Ainda ontem você era menina moça. Deixou a geografia dos livros para trás e foi ser professora de si mesma num labirinto que não está em mapa algum. Quando sentiu medo tirou a saudade que levara na bagagem e se agarrou a ela quase dando um passo para trás. Mas antes que isso acontecesse, o hoje chegou. E hoje você é menina mulher. Enquanto dominada pelo desespero, as lágrimas que tanto se acumularam sob os olhos causaram enchente impossível de conter. Seus olhos já não podiam mais ser represa. E então você lembrou que, antes de qualquer outra coisa, podia sorrir.

Hoje você é menina mulher. Largou o canto vizinho ao bar, fez pouco do centro do salão e subiu no palco. Esqueceu a leveza do balé e passou a pisar firme no chão. Bastou um primeiro sorriso para que outros começassem a surgir. Foi assim que, pela primeira vez, você sentiu o gosto da tão sonhada liberdade. A pura liberdade. E descobriu que, ao contrário do que achava anteriormente, ser parte do elenco principal não era tão ruim assim. Você, afinal, é a atriz principal de sua própria história. Não precisa mais deixar-se de lado pelo benefício alheio. O maior benefício que um outro alguém pode ter de você é o simples fato de você permitir que esse outro faça parte dessa peça que você dirige chamada vida. É assim quando nasce uma estrela.

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