Tuesday, November 19, 2013

perdão

Você pode bater o pé, fazer cara feia e jurar de mãos e pés juntos que não concorda, mas o fato é que não existe nada – a não ser uma máquina que apague a memória – que te faça esquecer verdadeiramente aquela traição que te machucou tão profundamente. O já batido ditado de que quem bate esquece, quem apanha não. Mesmo que a surra levada não tenha acontecido dolosamente. A gente faz merda sem querer mesmo, as vezes. Aprendi, vendo por este lado, que o perdão tem mais a ver com a forma como você passa a lidar com uma situação do que com o – falso – esquecimento dela.

É que já ouvi dizerem diversas vezes por aí que para perdoar é necessário esquecer, ou vice versa. Não concordo. Você pode perdoar, sim, sem esquecer qualquer mínimo detalhe daquilo que te levou a deixar o orgulho de lado e tentar sorrir mais uma vez. As vezes vejo o “perdoar” como o amor. A gente não ama ninguém só pelo que conhece de bom. A gente ama quando aceita até o que a pessoa não tem de bom. A gente só ama mesmo, de verdade, quando aceita aquele defeitinho chato que só veio a conhecer depois que a paixão passou. Perdoar é mais ou menos assim.

Eu te desculpo pela merda que você fez, mas isso não quer dizer que eu vá esquecer. Perdoar, pra mim, não tem nada a ver com o fato de fingir que nada aconteceu, afinal errar todo mundo erra. Essa é uma das coisas mais belas do mundo. O erro. Na maioria das vezes, é só quando erramos – e assumimos isso – que somos capazes de nos colocar no lugar do outro, deixar o orgulho de lado e assumir uma postura que até então consideraríamos impossível de partir de nós. Se partirmos do princípio que ninguém é perfeito, vejo que é o erro que nos torna humanos. E, acredito eu, perdoar é como que exercer nossa própria humanidade.

Claro que também não é de um dia pro outro que a coisa acontece. Não é automático decidir perdoar e simplesmente deixar de escanteio o motivo pelo qual o fez. Isso vem com o tempo – como diversas outras coisas na vida da gente. E aí chega a hora de passar a bola do saber lidar com a situação para o outro lado. Porque também seria fácil demais ser perdoado e pronto. O outro, mesmo que inconsciente, ao pedir perdão, traz consigo a disposição de ser paciente com todo o processo. Porque, vez ou outra, aquela dor pode acabar sendo exposta – seja no calor de uma discussão, seja ouvindo uma música ou simplesmente num momento introspectivo qualquer.

Querendo ou não, pedir perdão também implica num tipo de prisão cuja pena é mensurada pela volta da confiança – ou que for possível resgatar dela, se for possível. Não que seja impossível perdoar sem voltar a confiar, porque eu acredito que o é. Mas, em regra, quem é perdoado tem a crença de que, no momento seguinte, as coisas voltarão a ser como antes. E, por mais que o perdoador tenha se disposto a passar aquela pseudo borracha do esquecimento em cima do ocorrido, é praticamente impossível que a história continue tão bela quanto outrora foi.

Perdoar, na verdade, é algo que vai fazer muito bem para quem pediu perdão. Mas é ainda melhor para quem o faz. Tira um peso do coração, ajuda a virar a página, transforma a mágoa numa centelha de esperança na crença de que a vida tem seus percalços, mas não acaba. Perdoar colabora para que nos sintamos livres do pesadelo recorrente de que não merecíamos o que aconteceu. Mesmo que não nos livre de, vez ou outra, sermos tomados por uma dolorida lembrança do ocorrido. É assim mesmo.

Lembrar é inevitável, mas perdoar é a forma – pelo menos que eu encontrei – para não deixar que essa lembrança se transforme numa pseudo culpa pelo erro que o outro cometeu. Perdoar me dá a autonomia de acreditar que todo mundo merece uma segunda chance. Ou uma terceira, ou quarta e por aí vai. Pode ser que alguém entenda isso como falta de amor próprio, mas, ao meu ver, perdoar é um dos mais eficientes – e corajosos – atos de amor por si mesmo. E se perdoar e dar uma segunda chance implicar em dar-se mais uma oportunidade para ser feliz, porque não? É difícil, doloroso e, as vezes, até impossível acreditar que essa dor vai passar (pode até ser que não passe), mas se propor à tentar faze-lo pode ser o primeiro e único passo para conseguir. Eu prometo: a sensação de paz é inerente ao ato. Nem todos querem exercer o perdão, mas todos querem paz. Vale à pena tentar.

Monday, November 04, 2013

olhos

Não sei a cor dos seus olhos, fechados a maior parte do tempo, enquanto você se contorce suavemente ao som da música do bar. Uma cerveja numa mão, um cigarro na outra. Cabelo desgrenhado, pelo descuido costumeiro de quem raramente se arrisca a sair da rotina trabalho e faculdade durante a semana. Deve ser bicho de História, dizem uns, ou Ciências Sociais, dizem outros, e trabalhar com cultura, pelas vestes desprovidas de qualquer formalidade. Curte MPB, já se percebe. E agora ensaia uns passos de samba, desengonçado e sorridente, quase que sem graça por perceber alguns olhares femininos descarados e provocantes na sua direção. As gostosas sempre se dão melhor no fim da noite. Mas então, quase que sem querer, em meio a todos os sorrisos reluzentes da noite, você se vê observado por um par de olhos num rosto que não demonstra sorriso algum. Estou de lábios cerrados, hipnotizado pela sua desenvoltura meio sem jeito na pista central. Ri pra mim, demonstrando, quem sabe, interesse por quem está mais interessado na cor dos seus olhos do que terminar a noite na cama com você. É do tipo que dá mais valor à poesia que ao próprio poeta, penso eu. E talvez concorde comigo que só os olhos entendem mais de poesia que o próprio corpo que a declama. Eu rio de volta. Uma nascente sem água que desagua no mais absoluto silêncio que a banda deixa imperar no palco nesse momento. Elas vão até você, as gostosas, e eu acredito que, três da manhã, já é hora de seguir o ritmo dos músicos, entornar a saideira, pegar meu rumo sem rumo e partir. Saio do bar a chamar um táxi, batendo no vidro para acordar o motorista que dorme no banco de trás. Você me cutuca as costas e pergunta se não quero uma carona. Carona com desconhecido, onde já se viu. Já tive uma prima quase atacada por um desses psicopatas da noite rio branquense, vai saber. Mas você parece ler meus pensamentos: diz que vai pro mesmo bairro que eu. E você sorri, como se um sorriso fosse capaz de me convencer. Então você me olha nos olhos. Os seus castanhos, agora consigo ver. Poderia até errar dessa vez, mas nunca me enganara com o olhar de ninguém. Não é qualquer coisa que se extrai dos olhos de alguém, é poesia. E eu sempre acredito na poesia. Sigo no seu encalço, em silêncio, com as mãos no bolso, até seu carro. Você se desculpa pela simplicidade do automóvel. Usado, vinte e um anos de atividade, um ano mais velho que você, um estudante de Publicidade e estagiário em jornal independente. Dividimos um cigarro até me deixar no portão de casa, afinal foi carona assim oferecida. Até duvidaria do desprendimento de telefone celular, não fosse pela agenda abarrotada de papéis presos com clipes e grampos e cheia de anotações. Um último sorriso, quase gargalhado, ao dizer que não gosta de redes sociais.
- Alfredo.
- David – com d mudo.

Thursday, September 19, 2013

saudade da despedida

Me despeço com um beijo e um abraço. Digo um até amanhã com o desejo de que o amanhã chegue dali, no máximo, cinco minutos. Porque a saudade me completa envolvendo todo o meu corpo. Não só uma saudade de estar, mas de sentir. Um desejo e esperança de que o amanhã chegue tão rápido quanto aquele primeiro dia de aula do segundo grau quando, na minha cabeça, eu deixaria de ser criança para me tornar adolescente. Já sinto uma saudade entorpecente guiando meus passos até o momento em que vou te encontrar novamente me esperando ao lado da porta, de mãos abertas para adentrar o desconhecido. Me despeço com um beijo e um abraço como se dali, no máximo, cinco minutos, o mundo fosse deixar de existir. Porque essa saudade me completa com a mesma certeza de que, tão logo, haverá um reencontro.

Wednesday, September 18, 2013

a primeira vez

Começou com uma cadeira virando pra mim e um assunto engraçado sendo conversado. Mas eu prefiro dizer que começou com o primeiro encontro. Meu primeiro encontro, por assim dizer. O fato é que a primeira vez é sempre inesquecível. Pelo menos para mim. Eu estava nervoso, era perceptível. As mãos inquietas, a voz quase inaudível, a falta de assunto e o coração acelerado. Era minha primeira vez. Do primeiro encontro veio o primeiro abraço. Apertado, sem malícia, com carinho e muita gratidão. O nervosismo já não imperava, mas eu ainda ria descontroladamente vez ou outra. Ou sorria sem motivo, digamos. Então o primeiro beijo. Conectado sem amarras, sem diferenças, apenas com um encaixe perfeito. Do primeiro beijo a primeira espera. Não ultrapassar limites, não colocar a carroça na frente dos bois, ir com calma. Um riso bobo, um abraço apertado e o coração sempre acelerado. Então o encontro de corpos. O primeiro encontro de corpos. As mãos trêmulas afagando os cabelos enquanto se seguia rumo ao desconhecido. Um destino desconhecido que parecia há muito estar entrelaçado ao desejo de ambos. E o coração acelerado, sempre. Assim traduzia-se o bater de asas das borboletas dentro do estômago. Uma capacidade eloquente de transformar cada momento em uma primeira vez.

Sunday, September 15, 2013

72 horas


Um sorriso aberto entrega o que cabe nesse espaço de tempo entre um dia e outro e mais um dia. Uns vários sorrisos transmitem a possibilidade de transformar uma esperança em realização, enquanto se tenta desviar um olhar do outro, para que não ocorra de, de repente, fixar os olhos e perceber-se frente a uma miragem. Um coração acelerado vai além da velocidade permitida, encorajado pela impossibilidade de ser multado, mas, tão somente, ser recompensado. Tanto tempo torna-se pouco. E o corpo, estremecido de tão incrédulo, responde apenas aos sinais vitais, como se a qualquer momento fosse desfalecer diante de tão boas intenções. Setenta e duas horas transmutadas no desejo de ser melhor, de fazer melhor, de sentir melhor. Uma prece de mãos entrelaçadas, para acalentar a alma e levar paz aos sonhos que, agora, pareciam se realizar. E os olhos, então brilhantes, fixos na certeza de que estavam tornando aquele pequeno momento em algo eterno. Setenta e duas horas de incertezas tão certas quanto a certeza que após um domingo vem uma segunda.

Wednesday, September 11, 2013

só o tempo

Desejo nunca foi meu forte. Apenas te via através daquela tela que me levava a inúmeros lugares inimagináveis. Eu te via ali apenas como mais um daqueles que transportavam a notícia até a minha casa. Na maioria das vezes de calça jeans, mas sempre com uma camisa social daquelas que eu só vestia nas ocasiões mais importantes. A que eu mais lembro é de uma branca. Nem sei se você ainda a tem. Não sei se é verdade, mas você namorava alguém que eu conhecia na época. E, sim, eu achava que vocês iriam casar. E imaginava a revolução que seria na casa dele se isso acontecesse. E, de certa forma, imaginava como seria a revolução na minha casa caso acontecesse o mesmo comigo. Não te via além da beleza, não posso mentir. Ao mesmo tempo em que, lá vem a minha autoestima super legal, não imaginava jamais te conhecer, porque sempre te achei demais pra mim. E, de repente, tantos anos depois, isso acontece. Não sei dizer exatamente em que momento eu senti aquela pontada diferente no peito. Não sei se foi quando você virou a cadeira pra mim e puxou conversa, ou quando a conversa fluiu, ou quando nos despedimos e eu queria conversar mais, ou quando, de repente, você apareceu na minha lista de contatos, ou quando você passou o dia sem me responder, ou quando eu sonhei com você, ou quando eu senti sua falta. Não sei. Eu nunca sei, na verdade. E é uma das coisas que eu mais gosto em tudo isso: não saber. O não saber é tão legal. Apesar de eu não ter certeza de alguma coisa, eu tenho tempo pra imaginar. Eu tenho tempo pra criar uma história, inventar um futuro, sonhar com o papel principal da novela que eu nunca assisto, mas acompanho pelos resumos virtuais. Você me ignora, sem querer. Me distrai, sem perceber. Me entorpece de um jeito tão calmo que, só Deus sabe, faz tremer os dedos ao se entregarem ao teclado que tentam lhe passar uma mensagem. Você me fala de seriedade e eu brinco de ser sério. Me fala de relacionamento e eu lembro das duas únicas vezes em que quis casar, sem imaginar que uma terceira poderia chegar. E me expõe as flores de um jeito que eu olho para a janela e quero ter um jardim só meu para que você possa cuidar. Ou, melhor, para que possamos cuidar juntos. Me faz querer ser diferente sem nem ao menos ter pedido isso. Me transmite paz pelo simples fato de conversar tão pacificamente comigo que o resto do mundo parece complicado demais para eu conseguir entender. Assim, tão fácil. Tão fácil sem que eu mesmo entenda essa facilidade toda de me conquistar sem olhar, sem tocar, sem prometer nada. Quem pode dizer para onde vai a estrada, para onde vão os dias? Só o tempo. O tempo. O tempo através daquela tela que me levava a inúmeros lugares inimagináveis. Aquele tempo em que eu te via ali apenas como mais um daqueles que transportavam a notícia até a minha casa. Na maioria das vezes de calça jeans, mas sempre com uma camisa social daquelas que eu só vestia nas ocasiões mais importantes. O tempo, senhor do destino. O tempo, que sempre traz a solução sem nem ao menos saber se é dela que a gente precisa. O tempo que vem depois que a gente se sente livre o suficiente para abrir as asas e voar para um ninho mais seguro que aquele com o qual estávamos acostumados. O tempo que abre meus olhos e ilumina o caminho, não sei se mais certo, mas, com toda a certeza, mais aberto e verdadeiro que os tantos outros que um dia eu tentei seguir. O tempo que parece não passar, mas deixa que chegue mais um dia para ser feliz.

Tuesday, July 23, 2013

pedacinho do céu


Meus passos iam curtos. Seguia caminhando à beira do rio, em busca sabe lá Deus do quê. Olhava um horizonte meio perdido dentre as árvores que seguiam a curva que a água fazia logo a frente. O sol já se escondia por entre as folhas, mas deixava aquele turbilhão de cores perpetuando-se através do céu que ia escurecendo. De certo que, apesar de estar com vários objetivos na cabeça, ainda sentia o peso do fracasso sobre ela. Era como se estivesse seguindo em frente, mas seguindo para um futuro vazio. Algo estava errado. Sentei à margem do rio e me peguei a pensar. A gente passa muito tempo da vida procurando sentido nas coisas. Até perceber que, na grande maioria das vezes, a maioria dessas coisas não faz sentido nenhum. Porque costuma-se procurar sentido onde já se sabe, na grande maioria das vezes, que não há. E você só percebe isso quando é surpreendido por algo que, de certa forma, estava colocado bem à sua frente e você nunca estivera de olhos abertos para enxergar. De repente quando tudo parecia sem sentido você decidiu seguir um caminho diferente. Estabeleceu um novo foco, decidiu, se não começar do zero, pelo menos transformar seus passos numa nova caminhada. E, naquele momento, admirando a água barrenta que seguia um curso certo, eu, inerte e sem saber o curso que deveria seguir, percebi que deveria seguir um curso qualquer. Ali, naquele instante, cabeça meio vazia, pés molhados, esperança se acumulando, eu recebi um pedacinho do céu. Não precisou me abrir os olhos, que já estavam abertos. Mas encheu meu coração de paz. Me disse que no inverno ainda existem plantas que florescem. Deus me enviou um pedacinho lá de cima para me fazer crer, com toda a convicção que eu tivesse naquele momento, e da forma mais simples possível, que a gente nunca deve perder a esperança. Um pedacinho do céu apareceu do nada e encheu de alegria meus dias e aqueles pensamentos outrora vazios. Levantei e resolvi seguir minha caminhada. À beira rio, ainda. Ainda não sabia em busca do quê. O sol já havia se posto e o horizonte já não se mostrava tão colorido. Mas o céu escuro já não significava apenas que não existiam cores, apenas que eu deveria ter paciência pois elas viriam novamente pela manhã.

Friday, July 05, 2013

de volta pra casa

Eu nunca te pedi um pedido de desculpas. Nunca te pedi pra beijar meus pés e dizer que era culpado de qualquer crime que fosse para que eu voltasse atrás de qualquer decisão e me envolver novamente em teus braços. Nunca te pedi que me beijasse novamente como da primeira vez. Nunca te pedi que me dissesse eu te amo, como da primeira vez que nem de verdade ainda era. Porque eu sei que, de verdade,e você só me disse isso alguns meses depois. Tanto que naquelas três primeiras vezes que eu ouvi nem soube retribuir porque não sentia o mesmo. Eu nunca te pedi pra me apresentar ninguém, pra me incluir na sua vida, me pegar pela mão e, contra tudo e contra todos, me levar pra almoçar com a família inteira como se nada estivesse acontecendo. Eu nunca pedi pra comer o churrasco que você, humildemente, dizia saber fazer. Nunca pedi pra tomar banho na piscina que você tanto esbanjava ter. Nunca pedi pra conhecer o Rio de Janeiro. Nunca, nunca mesmo, pedi pra dividir um apartamento ou um simples café da manhã com você. Ou até mesmo aquele simples último passatempo recheado do pacote. Que, no fim das contas, eu sempre deixava pra você. Eu nunca, na verdade, te pedi pra me prometer nada. Nem amor, nem fidelidade, nem lealdade. Eu nunca te pedi nem mesmo estar ali pra mim quando eu quisesse. Eu te peço hoje. Talvez seja tarde, realmente. Talvez pedir hoje seja pedir demais. Não que eu ache, porque não acho. Porque te pedir pra mim não é pedir demais. Porque acho que já somos um pro outro sem precisar pedir além disso. Mas eu te peço além. Eu te peço além de tudo isso que nunca te pedi. Eu só te peço, hoje, que nunca, nunca mais, deixe de me pedir nada. Como eu nunca mais deixarei de te pedir nada. Porque, pensando bem, sei que amadurecimento tem muito mais a ver com o que nós mesmos temos consciência. Mas também tem a ver com aquilo que nós conseguimos pedir ao outro que faça por nós. Não que o outro seja obrigado a fazer. Mas o outro também não é obrigado a adivinhar o que nós queremos. Na verdade nós somos obrigados a dizer ao outro o que nós queremos. A cabeça que está acima do pescoço é a nossa própria. E talvez um dos maiores erros esteja aí. Os outros erram. Mas nós também erramos. Não é medida de erro. É só questão de reconhecimento. É só questão de, por mínimo valor que seja, dar um tempinho do seu dia pra poder ouvir o outro. Talvez não seja o que você quer ouvir. Mas seja o melhor, e mais honesto, que ele tem a lhe oferecer. As vezes são risadas. E não há nada mais sincero que isso. Talvez eu nunca tenha errado. Talvez você nunca tenha errado. Mas, hoje, isso não importa. Porque, hoje, erros não importam. Nem acertos, na verdade. Hoje só importa o hoje. Hoje só importa o saber que, a qualquer hora que seja, um vai estar pro outro mais que qualquer outro dia. Porque o amor - e isso, pra mim, é a verdade mais absoluta - está além do beijar na boca ou dormir junto. O amor está no simples fato de rir junto, mesmo de longe. O amor está no simples fato de pensar na mesma coisa, mesmo que separado. O amor está no simples fato de existir, sem cobrar nada em troca porque é o sentimento mais gratuito de todos.

Wednesday, July 03, 2013

a pequena princesa

Olho para minha estante de livros e me recordo do dia em que conheci uma menininha engraçada. Tinha por volta de sete, oito anos. Estávamos os dois no consultório do dentista. Ela aguardava sua mãe sair e eu seria o próximo paciente. Estava sentada ao meu lado com O Pequeno Príncipe nas mãos, mordendo o canto dos lábios. Sem qualquer apresentação ela virou-se pra mim:
- Moço, qual seu maior sonho?
Acabei por dar um sorriso meio bobo, enquanto ela repetia a pergunta, com um brilho nos olhos que era só dela. Eram olhinhos esverdeados. Crianças morenas de olhos claros são lindas. Resolvi dar-lhe atenção e fiquei a me questionar que sonho eu poderia considerar como o maior de todos. Pensei em todas as vezes que quis sair de casa e meu sonho era comprar um apartamento. Pensei na faculdade que eu fiz na esperança de uma melhor situação financeira pra realizar o sonho de fazer outro curso. Lembrei-me das horas de situação econômica precária enquanto sonhava em conseguir um bom emprego. Lembrei-me daquele carro que passei a infância inteira sonhando para ter um igual. E aquele passeio de navio que eu nunca fiz. Conhecer a Europa, talvez? Veneza seria uma boa. Ver a Terra do espaço? Talvez ter um filho seja uma boa. Formar uma família, eu poderia dizer a ela. Mas aquele livro em suas mãos não era apenas obra do acaso. E eu lembrei de todas as vezes em que eu vi o fundo do poço, de todas as decepções que eu tive, todos os pesadelos que me assustaram noite adentro e em todas essas horas eu só sonhava com a hora que tudo ficasse bem. E lembrei da única coisa que sempre me fazia voltar para meus sonhos: escrever.
- É isso aqui – eu disse enquanto apontava para a página aberta do livro – Meu maior sonho está aqui. São essas palavras, sabe? Quero conhecer todas, entender todas e poder escrever histórias sobre pessoas que fazem perguntas tão inteligentes assim como você.
Ela me sorriu. A mãe saiu da sala do dentista.
- Toma, aqui tem um monte de palavra bonita – ela disse enquanto descia do sofá e colocava o livro sobre minhas pernas.
- Mas esse livro é seu.
- Fica. Fica de presente.
Dei um sorriso meio bobo novamente.
- Só me fala uma coisa antes: e o seu, mocinha? Qual o seu maior sonho?
- Ser assim tão inteligente quanto o senhor.
Eu nunca havia lido O Pequeno Príncipe antes, mas já conhecia uma pequena princesa.

Sunday, June 09, 2013

filosofia madrugueira

minha inteligência não me faz mais experiente, mas minha experiência me faz mais inteligente.

Wednesday, June 05, 2013

né?!

mesmo com toda a experiência que a vida me deu, ela ainda consegue me surpreender com aquilo que eu já deveria estar acostumado.

Saturday, May 18, 2013

acontece

Eu não pedi pra nascer, sabe? Não pedi pra vir ao mundo, pra fazer parte da família na qual eu nasci, pra ter de dar conta das responsabilidades que eu tenho hoje. Eu não pedi pra estudar em escola particular, nem pra estudar inglês no cursinho, muito menos pra fazer parte dos filhinhos de papai que tanto me rodearam a vida inteira. Eu não pedi pra ter os melhores brinquedos, nem pra participar das festas mais divertidas dessa casa. Não pedi pra ter vários tios e tias, nem pra lidar com inúmeros primos, muito menos pra ter parentes em uma ou outra cidade. Não pedi pra saber escrever, nem pra fazer amigos, nem pra ser legal. Não pedi pra ser querido, não pedi pra que sentissem minha falta. Que eu me lembre também não pedi pra que lembrassem de mim em hipótese nenhuma. Eu não pedi nada. Mas aconteceu. Eu nasci, eu vim ao mundo, eu faço parte da melhor família que eu poderia ter. Eu tenho as responsabilidades que eu deveria ter. Eu estudei em escola particular, em faculdade particular. Fiz inglês no melhor cursinho que tem na minha cidade. Fui filhinho de papai, e ainda sou, mas não ligo nem um pouco pra isso. Eu tive os melhores brinquedos e participei das melhores festas na minha casa. Tenho vários tios, tias, sobrinhos, primos e etc. E tenho parentes em outras cidades, assim como tantas outras possibilidades. Aprendi a escrever, fiz diversos amigos, e sei que sou legal. Sou querido – modéstia à parte – e sei que sentem minha falta. Sei que lembram de mim diversas vezes. E, ainda assim, eu não pedi nada. A única coisa que eu pedi, e pra mim mesmo, dentro de mim, foi que eu não ficasse sozinho. E Deus atendeu minhas preces. Ele me deu o melhor sem que eu pedisse. E ainda me satisfez sem que eu soubesse que tudo se tratava de algo que eu não tinha como explicar. Mas eu aprendi. Porque nem tudo precisa de explicação. Basta viver, sentir, saber. Eu vivo, sinto e sei: estou no melhor lugar que poderia estar. Eu não pedi nada. Mas ganhei muito mais do que poderia imaginar.

Thursday, May 16, 2013

tricô

Ela me ligou. Contou da vida, o que fazia, pra onde ia, como estava se sentindo. Falou do novo relacionamento, de como ele é legal, amoroso e prestativo. Citou algumas situações familiares engraçadas, daquelas que são ditas seguidas de muitas gargalhadas. Brincou com a quantidade de calorias que eu andava ingerindo nos últimos dias. Aconselhou-me a procurar alguma academia e voltar a praticar exercícios. Disse, também, que ia viajar no feriado. Aliás, pretendia. A situação financeira não estava lá essas coisas, ela desabafou. Disse que lá no trabalho as coisas estavam melhorando, mas o salário ainda estava na expectativa de aumento desde sabe-se lá quando. Perguntou do novo livro que eu estava escrevendo. Reclamou por só saber do livro porque alguém comentara. Se desculpou por não ter ligado no aniversário. Cabeça avoada como sempre, ela confessou. Me desejou sorte, sabe que eu sou capaz. Comentou sobre a briga de um casal de amigos. Confidenciou uns acontecimentos recentes. Confiou em mim para desabafar. Desejou felicitações pelo aniversário do meu afilhado. Mas cansou de ouvir, cansou de falar. Já deu, ela disse. Despediu-se. Mandou beijo e um até logo e desligou. Eu liguei de novo. Esqueci de dizer antes. Eu te amo, não esquece, eu disse. Ela disse que também. Sempre mais.

Thursday, May 02, 2013

já é mais

Sinto falta dos seus olhos, sabe? Sabe, afinal você sempre soube o quanto eu admiro os olhos, o olhar, a forma mais discreta de se insinuar, o jeito mais sensual de se conquistar. E esse sorriso maroto? Aquela gargalhada em alto e bom som que é impossível não reconhecer? Ah, quando você mordia os lábios e me convidava a deitar com você na cama. Lembro da pele, também. Aquele cheiro do hidratante que você sempre passava após o banho. Será que você ainda usa o mesmo? E o perfume? Será que ainda é aquele? Eu tenho um igual. Já quase no fim, mas não termino nunca pra não esquecer o seu cheiro. Essa coisa de que cheiro traz memórias é a mais pura verdade. Lembro de tantas noites em que nossos perfumes se misturavam aos lençóis da cama e como aquela energia consumia nós dois a noite toda. Sabe do que eu sinto falta, também? Dos nossos cafés da manhã. É, aquele mesmo que a gente descia do apartamento pra comprar na padaria e voltar pra cama logo em seguida. E há quanto tempo eu não faço faxina num domingo? Você sala. Eu banheiro. Você quarto. Eu área de serviço. E os dias de criança com as nossas crianças. É, sinto muita falta daquelas tarde divertidas na pracinha. Eu sinto falta de dormir fora de casa pela primeira vez. E de ter tido uma lua de mel de um mês no Rio de Janeiro sem nem ao menos ter casado. Aliás, eu sinto falta mesmo de uma vida de casado. Lembro das festas da sua família, em que eu sempre me senti parte da família. Dos laços eu não sinto falta, porque ainda os tenho, e ai de quem ousar me tirá-los. Eu sinto falta de deixar a loucura me tomar a cabeça e me fazer tomar banho de chuva na estrada. Além de várias outras coisas que a loucura já me fez fazer com você. E a sensatez também, claro. Tenho saudade de pegar a estrada sem rumo, por horas, só para trocar ideias de como foi o dia um do outro. Ah, as surpresas. Sinto falta de te surpreender, sabe? Desculpa, mas é que você é um pouquinho ingênuo sim. Eu sempre consegui te surpreender, vai, assume. Nunca te fiz uma surpresa que não fosse realmente surpresa. E eu sinto falta de estar frente a frente com você nessas horas, só pra ver sua cara de bobo. Que é linda, diga-se. Eu que sempre fui péssimo para receber surpresas, né? Lembro de uma vez que você tentou me fazer surpresa e eu estraguei tudo com essa minha mania de desconfiar de tudo. É, disso eu não sinto saudade. Nem um pingo de saudade de ser tão desconfiado. Mas eu sinto saudade de ouvir aquele toque especial no meu celular, acredita? É, aquele de quando nos conhecemos. A propósito, impossível ouvir a música e não lembrar de você. Uma coisa é inerente a outra. Que tempo bom aquele, né? Eu sinto falta dessa época, quando começamos a nos conhecer. Quando eu soube quem você era sem que você percebesse isso. O quanto eu te conheci e te amei tão rápido. Sinto saudade, sim, de quem fomos. Mas me orgulho muito de quem somos. Porque sentir saudade do que já passou significa que foi bom. Mas ainda estar perto de quem o outro é, é motivo suficiente para acreditar que não só foi bom, como foi um dos momentos mais incríveis e especiais da sua vida.

Wednesday, May 01, 2013

pista de dança

Você olha pra mim com esse jeito meio indecente. Como se me devorasse apenas com o olhar. Não é bem o que passa pela sua cabeça, eu sei. Mas me entorpece o corpo. Minhas mãos gelam enquanto disfarço meu próprio olhar. Não deixo transparecer meu incômodo enquanto você dança sensualmente e me olha com o canto dos olhos. Entrego-me a mais garrafas de cerveja. É quase impossível resistir ao perfume que você exala enquanto se move. Sentado no chão no canto da pista de dança eu vejo você ali no meio, de olhos fechados, mãos para cima da cabeça, envolvendo-se em si mesmo. De repente você aponta pra mim, como se me convidasse a acompanha-lo. Eu hesito em levantar-me, mas como resistir ao encanto dessa música quando é você quem me chama para dança-la? Mas como posso ser egoísta ao ponto de dividir a atenção com você? Parece que só há nós dois, mas é como se o universo interagisse para que apenas você estivesse ali. Assim como você, a luz dança pelo ambiente. E é como se o movimento de ambos se completasse. Na hora certa ela ilumina seus olhos fechados, em seguida seu cabelo esvoaçando sutilmente, e logo depois passa por todo o seu corpo, conforme você se movimenta. Mas você insiste, vai chegando mais próximo, com os braços estendidos, oferecendo as próprias mãos para eu me apoiar. Me olha nos olhos e me faz baixar a cabeça, envergonhado, desacreditado que aquela cena possa ser real. Mas levanto os olhos novamente e lá está você. Como resistir ao encanto desses olhos? Até é possível resistir à dança, aos movimentos, ao chamado. Mas resistir aos olhos é impossível. Enquanto você me olha é como se realmente não existisse ninguém. Até me sentiria invisível, não fosse pelo fato de você estar olhando pra mim. Levo minhas mãos às suas e resolvo aceitar o convite. Você me puxa para o centro da pista e passa a movimentar-se ao meu redor. Abre e fecha os olhos, mas, quando abertos, não os tira de mim. Passa os dedos pela minha face, acariciando meus lábios enquanto morde os seus. Era sempre nessa hora que meus sonhos terminavam. Era exatamente enquanto me fazia desejar sua boca que você se esvaía. Era sempre no momento que eu esperara tanto acontecer que você soltava minhas mãos e, sem despedida, me deixava ali. Mas dessa vez era diferente. Você ainda não tinha ido. E mordia ainda mais os lábios, me convidado a tocá-los com os meus. Dessa vez você não apenas me conquistava com os lábios, mas com os olhos. Seus olhos convidavam para que eu me aproximasse mais. Então agradeci o convite com os meus e os fechei. Por mais que não pudesse mais vê-lo, era impossível não te sentir. Então unimos os corpos. Uma sinergia inexplicável. Um convite ao paraíso. Um desvair-se, dessa vez, de comum acordo. Para outra pista de dança em que as luzes iluminem somente a nós dois.

Sunday, April 28, 2013

apaixonar-se

As pessoas reclamam por estarem apaixonadas. Não gostam, acham tosco, fora do normal. Hã? Estar apaixonado é uma das melhores coisas da vida. Por menos correspondido que seja. Estar apaixonado faz bem, faz o coração bater mais forte, faz o corpo pedir pra ser mais cuidado que o normal. A paixão te invoca a fazer loucuras, que você não faria são, apesar de querer ao tempo todo fazer. A paixão te deixa bêbado sem álcool. Te deixa como dopado de uma droga que nem você conseguiria descrever exatamente como é. Seu corpo todo estremece, por vezes, quando não resolve simplesmente desfalecer. Você escuta a voz e é como se a sua música preferida estivesse simplesmente encantando todos ao redor. Você sente um simples toque, até sem querer, e é como se o resto do mundo sumisse da sua frente. Estar apaixonado é muito mais que mandar flores ou se declarar publicamente. Estar apaixonado envolve muito mais o sentir-se bem que o sofrer por quem não está ao lado. Precisar saber onde o outro está o tempo todo não é amor, tampouco paixão. Isso é doença. Paixão é estar disposto mesmo quando não se está. É sorrir, mesmo quando se está a ponto de chorar. Estar apaixonado é ver o pôr-do-sol mais colorido do que ele já é. É não ver apenas um azul, mas um azul turquesa, um azul claro, um azul escuro, um azul-oceano dentre tantos outros que existirem por aí. Porque até isso a paixão faz: consegue te fazer enxergar até coisas que não existem ali, a olho nu. Estar apaixonado não é sofrer, mesmo que por vezes isso aconteça. Estar apaixonado é ver em cada amanhã uma nova possibilidade de vários ‘ontens’ ainda acontecerem. Apaixonar-se está muito mais além do que simplesmente esperar uma ligação ou uma mensagem. Apaixonar-se tem mais a ver com o egoísmo de sentir-se mais feliz que qualquer outra pessoa do mundo. Mesmo que não tenha motivo para isso.

Monday, March 18, 2013

a beleza da mudança é nunca saber como as coisas vão ficar.

Tuesday, March 12, 2013

Eu tive um cachorro



Eu tive um cachorro. Eu tinha lá pelos meus  dez, onze anos. A cadela de uma vizinha tinha tido alguns filhotes e ela perguntou se eu não queria um. Com o aval dos meus pais escolhi aquele filhotinho marrom. Não era bem um marrom. Era mais claro. Não sei bem definir a cor específica que ele era. Mas lá foi aquele cachorrinho parar na varanda da minha casa. Era tão bonitinho. Aquele latido fino quando começou a rosnar como se pudesse amedrontar quem se aproximasse.

Minha irmã, que, à época, morava comigo, não era muito fã de cachorros. Ela tinha – tem – essa coisa com bichos de estimação. Meus pais já haviam tido um cachorro, dos grandes inclusive, mas até aquele pequenininho lhe causava um pouco de medo. Mas, conforme ele foi crescendo, até ela se acostumou com ele. Não o queria por perto, roçando suas pernas ou simplesmente clamando por carinho, mas também não se incomodava com sua presença em casa.

O Tobby cresceu. E eu também. E eu passei a não querer responsabilidades. Então ele se virava sozinho. Aprendeu a viver nas ruas. Estava sempre pela praça próximo à minha casa, com os outros cachorros da vizinhança. Quando eu saía de manhã pra ir pra aula lá estava ele, estirado na calçada, aproveitando aquele sol das sete da manhã para deixar seus pêlos mais brilhantes, que agora tinham uma aparência cobre e, conforme ele se movimentava, via-se estampado ali um brilho que raramente eu havia visto em um cachorro.

Minha tia o chamava  de “o cachorro elegante”. Se referia ao andar dele, todo pomposo, sem abaixar a cabeça e com um reboladinho que era só dele. Mas eu só brincava com o Tobby. Talvez pelo fato de eu estar seguro que ele realmente era independente e sabia se virar quando eu não estivesse por perto. Mas o fato é que a moça que trabalhava na minha casa, Dona Francisca, é que cuidava dele enquanto eu não estava ali.

Na verdade o que me faltava era responsabilidade. Era muito fácil eu querer um cachorro. Tinha dez, onze anos, e não imaginava que ter um cachorro dava trabalho. Ter um cachorro, pra mim, era uma questão de diversão. E, mesmo eu não estando presente na maior parte do tempo, sempre que eu aparecia ele corria pra cima de mim. Pulava nas minhas pernas, mordia sutilmente, latia de felicidade. Hoje eu recordo que, muitas vezes, em momentos assim, eu acabava simplesmente pedindo que ele saísse. E, ainda assim, ele repetia as mesmas coisas todos os dias.

Até que, em decorrência de seus passeios na rua e da minha falta de cuidado, ele se encheu de carrapatos. Era 2002 e eu tinha acabado de completar quatorze anos. Estava no último ano do meu primeiro grau. Tobby estava chegando ao seu quarto aniversário. Meu pai resolveu dar um jeito nos carrapatos e passou veneno por todo o corpo dele. O único porém foi que aquele veneno para os carrapatos deveria ser utilizado em bovinos. E meu pai havia despejado por todo o corpo do meu cachorro.

Percebendo-se molhado, Tobby começou a se lamber. Achava que era água, talvez, e queria se enxugar. Fui informado, então, que ele não queria mais comer nada, que estava muito debilitado e deveria ser levado ao veterinário. Não lembro bem, mas acho que minha mãe o levou. Ele dormiu lá nesse dia. Então no dia seguinte estávamos com ele em casa, ainda debilitado, mas o doutor havia receitado um remédio para lhe dar de tantas em tantas horas via oral. Naquele momento, ali, no auge do meu desespero, eu percebi que não queria perde-lo. Que o fato de não cuidar não era simplesmente não gostar. Era só que eu não era responsável.

No dia seguinte, quando voltei da aula, Tobby não estava em casa. Meu pai me disse que minha mãe o levara no veterinário novamente porque ele não tinha ficado muito bem. Fiquei tranquilo, pois tinha dado o remédio igual o doutor havia falado. Então almocei e fui para o meu quarto ver um pouco de televisão antes que ele chegasse. Mas ele não chegou. Minha mãe voltou pra casa sem o meu cachorro. Tobby morreu. Lá, na mesa da clínica, sem que eu pudesse me despedir ou simplesmente enterrá-lo em algum lugar.

Meu cachorro simplesmente foi largado para que o veterinário desse um destino para ele. Ninguém perguntou o que eu queria fazer com ele. Ninguém me deu uma chance de, pelo menos, abraçar meu cachorro uma última vez. Eu, que nunca tinha cuidado dele, estava ali, agora, arrependido de todo o tempo que o deixei de lado, como se ele fosse simplesmente um brinquedo meu, que eu podia pegar e largar a hora que quisesse.

Meu pai se culpou por muito tempo. Até arranjou um novo cachorro, mas eu decidi não ter mais animais de estimação até que garantisse a mim mesmo que eu poderia cuidar dele. Minha irmã, aquela que não gosta de animais de estimação, pela primeira vez disse pra mim que o Tobby era o único cachorro que ela gostava. O grande lance é que não havia ninguém em casa que não gostasse dele. Ele era respeitador, era nosso guarda, era quem, sendo cuidado ou não, estava ali do nosso lado no momento que fosse.

Por quatro anos eu tive um companheiro. Que seria inseparável se eu não o tivesse separado tanto de mim. Espero que ele tenha levado lembranças boas de mim. A D. Francisca com certeza ficou na sua memória. Era como uma mãe pra ele. Eu talvez tenha ficado como o irmão mais velho, que não dá muita atenção, mas sabemos que é seu jeito de amar. Eu não tive mais nenhum cachorro desde então, mesmo querendo muito. Porque já prometi a mim mesmo que só darei amor a outro bicho de estimação quando tiver plena capacidade que estou disposto a assumir a responsabilidade. Saint-Exupéry, sabiamente, já nos ensinou: tu és responsável por aquilo que cativas.

Monday, February 18, 2013

do amor

- eu acho que já o amo.
- como é que é?
- eu o amo.
- não, você não o ama.
- então o que é isso que eu to sentindo?
- paixão. você tá apaixonada.
- mas é muito forte.
- continua sendo paixão. a gente não ama com três dias. a gente pode se apaixonar, mas amar não. amor, como dizem os indianos - e nisso eu concordo com eles -, vai sendo construído com o tempo. você precisa conhecer os defeitos do outro para amá-lo.
- que loucura!
- mas é. quando você conhece alguém e se interessa por, você olha as qualidades, olha o que aquela pessoa tem de bom e de diferente. conforme o tempo passa todo mundo vai mostrando seus defeitos, seus problemas, e aí sim, depois disso é que você pode dizer que ama alguém. não adianta dizer que ama sem amar por inteiro. você não pode amar só um pedaço. amor é ou não é. e ponto. é por isso que não dá pra medir, sabe? "você ama mais fulano ou beltrano?". não dá. você só ama por inteiro. você pode se importar mais com um ou com outro, mas amor não é medida. amor é sentimento. ou você sente ou não. 

Thursday, February 14, 2013

ontem eu aprendi

Nunca fui bom em oratória. Pelo contrário, falar em público sempre me deixou nervoso, com mãos trêmulas e suando frio. Apresentar trabalho na sala de aula era a maior tortura da minha vida. Nunca soube lidar em ser o centro das atenções para coisa séria. Talvez tivesse vergonha das minhas ideias ou simplesmente não conseguisse ser firme para ensinar alguma coisa.

Com o tempo acabei aprendendo a lidar melhor com isso, acabei aprendendo que, em determinadas situações, eu seria obrigado a encarar as pessoas à minha frente. E, mais importante ainda, eu iria aprender a encarar até mesmo aquelas que eu não conhecia. Claro que isso não acontece em todas as ocasiões, mas consigo ser suficientemente corajoso pra apresentar um trabalho, pra expor uma ideia a um grupo, para ler meu discurso de formatura da forma mais natural possível e até para me declarar àquelas pessoas por quem me apaixonei. Alguns eu conquistei assim.

Já outros por pequenas atitudes que eu também sempre considerei muito mais importantes que quaisquer outras extremamente magníficas. Sempre me ateei ao simples, aos detalhes. Porque, pra mim, era aí que tava a beleza da coisa. O significado era mais importante do que o próprio objeto. Alguns eu conquistei assim.

Mas eu sempre fui bom em escrever. Sempre fui elogiado pela letra, pelas palavras bem articuladas no papel, pela criatividade nas atividades que exigiam o uso da imaginação. Sempre fui bom em me esconder atrás dos papéis. Foi assim que uma vez namorei por cartas, ou na vez em que quis contar aos meus pais que eu fumava, ou até mesmo na hora de pedir desculpas por algo errado que fiz. Muitos eu conquistei assim.

No acontecer das coisas acabei conquistando por cada parte dessas. Mas, se gostaram de mim, me amaram foi porque conheceram pelo menos um pouco de todas delas. Só que o tempo passa, as coisas mudam, quer você queira, quer não. Aqueles com as quais você mais agia, você passa a falar mais. Aqueles com que você mais falava, acaba escrevendo mais. E aqueles para os quais mais escrevia, agora se relaciona apenas por pequenos gestos.

Nem eu seria capaz de entender isso sem vivenciar. Porque passei quase minha vida inteira acreditando que as coisas não podiam ser assim. Que essas mudanças não significavam o natural ciclo da vida, mas uma falta de amor, uma falta de sentimento, um desprezo que chegava a ser muito desprezível. Nunca foram justos comigo aqueles que isso faziam. Até que eu visse, ouvisse, lesse, sentisse na pele, no sabor e, por fim, entendesse.

E quando você entende você acaba querendo que todos os outros entendam também. Essa é a parte difícil que você também demora pra aceitar. Que os outros tem o próprio tempo. E esse tempo um dia chega. O tempo que você percebe que pode estar feliz sozinho. O tempo que você percebe que te amam, mas a forma como demonstravam isso pode ter mudado. E até não existir mais. Mas isso não quer dizer que o sentimento não está ali.

Mas é o ciclo natural da vida. Nem todo mundo entende. Nem eu entendia. Nem você, talvez, entenda. Isso é crescer. Pra mim crescer é entender. Desde que eu comecei a olhar para as coisas da vida com um olhar de aprendizado e não da vítima perseguida na sua felicidade, eu passei a estar mais feliz. Porque, sim, eu sei que meus problemas não são maiores que os dos outros. Mas eu já sei discernir, dentre os meus, para os quais eu devo realmente buscar soluções ou para os quais eu tenho que tirar da categoria de problema e colocar na prateleira de simples egocentrismo.

Wednesday, February 13, 2013

então esse ano

então eu tentei, de todos os jeitos, dar um passo pra direita. quando não deu certo eu dei um passo pra esquerda. mas também não deu certo. frente? trás? diagonal? o fato é que não adiantava eu dar passo pra qualquer lado que fosse. se fugir de você parecia difícil, agora eu percebia o quanto era impossível. porque, com todas as dificuldades e sofrimentos que a vida me deu, eu aprendi a te amar em cada pequeno defeito que se tornava verdadeiramente pequeno em cima de todas tuas qualidades. e se alguém reclama que eu te exalto demais, eu olho e digo que é porque eu sei que você precisa disso pra saber quem é. pra nunca deixar de acreditar em todas as possibilidades que existem bem aí, na sua frente. e meus passos, pra qualquer lado que forem, de nada adiantarão enquanto eu não olhar nos seus olhos e perceber a verdadeira felicidade dentro deles. porque eu sou um pouco dela, eu sei. aquela princesa que te protege é mais ainda. mas, tem algo aí, sabe? algo bem aí dentro que ainda falta vir pra fora e tornar teus olhos verdadeiramente felizes. e não, enquanto eu não puder ver isso aos meus olhos nus, eu não vou descansar. e posso até ficar parado aqui, sem ter qualquer lado pra ir, porque eu prefiro aguentar a espera do que desistir.

Wednesday, January 30, 2013

...a verdade sai.

aí eu resolvi tomar uma cerveja. é, naquele mesmo bar em que a gente se conheceu. mas eu não consegui me satisfazer com uma, então tomei mais uma, e mais uma, e mais uma, e mais várias. e aí eu lembrei de ti. lembrei de quando você se interessou por mim. quando quis me conhecer, saber meu nome, sair comigo. eu nem imaginava. você também não. seria mais uma noite como outra qualquer. aí passou um filme na minha cabeça, daqueles que em duas horas é possível resumir tudo numa coisa só. só que duas horas é pouco tempo pra resumir. porque até resumo, em relação a gente, é impossível. aí eu lembrei que tenho seu telefone. ligar? não. preferi mandar mensagem. escrever aquelas poucas - muitas - coisas que eu sempre disse, digo e vou continuar a dizer. doa a quem doer. mesmo que doa em você. porque, como já me disse uma amiga minha, passar vontade não vale à pena. eu não passo mais vontade. mas eu sinto saudade. eu sinto saudade da tua voz, do teu jeito, da tua pele colada na minha me fazendo acreditar que éramos apenas um. o que eu ainda acho que seja. e, pelo menos por enquanto, eu ainda não posso pegar essa saudade, colocar no bolso e esquecê-la lá pra que volte da máquina de lavar como um papel rasgado. mesmo que seja o que eu queira. eu queria mesmo que a vida fosse como eu sempre sonhei que fosse. um ano, dois anos, três anos. um noivado, um casamento, um apartamento, uma vida a dois. dividir as contas, comprar geladeira, sofá, arrumar direitinho o quarto da filha mais velha (ou única). rosa? ou será que ela já cresceu demais e quer escolher a cor? aí eu lembrei que eu to aqui, e você tá lá. ou que você tá aqui e eu to lá. eu sei que, no meio desses encontros e desencontros, a gente se encontra. vez ou outra. horas, dias, semanas ou meses depois. anos não. porque anos pra gente é demais. trezentos e sessenta e cinco dias é muito tempo pro que a gente sente, pra gente ficar longe um do outro. eu não digo teu nome, porque não preciso dizer algo que já tá tatuado na minha pele pra todo mundo ver. mas nem todo mundo vê. você vê, eu sei. porque eu também vejo aí, estampado na testa, o meu nome em letras garrafais. nunca te pedi pra me esperar a vida inteira. mas prometi, pra mim mesmo, não perder a esperança de te ter pra minha vida inteira.

Monday, December 31, 2012

Enfim

Não é no dia de hoje que você vai relembrar tudo o que fez durante o ano. Tenho certeza que você já vem fazendo isso desde dias atrás. A lista de promessas se perdeu por detrás do sofá. Caiu ali, entre ele e a parede, e você só achou quando afastou pra limpar e ainda assim jogou no lixo. Três, quatro, daquelas pessoas que você abraçou e desejou mais um ano de amizade, simplesmente seguiram por caminhos diferentes e vocês nem mais se falam. Sua música favorita já deu lugar a outra. E aquele livro que você tanto gostava, acabou indo parar na mão de outro. E não teve só fraternidade dentro da sua casa também. Brigou com seus pais, com seus irmãos, com seu melhor amigo. Além do que tava todo mundo esperando o fim do mundo, então você acabou se despreocupando até com o novo ano. Mas lá vem ele chegando, de mansinho, daqui algumas horas, pra nos proporcionar mais tantas falsas promessas. Mas, em contrapartida, oferecer mais uma vez o melhor ano da sua vida, o ano com mais alegrias verdadeiras, e um maior número de vitórias que o que vai acabando já trouxe. E que no próximo último dia do ano você tenha cumprido pelo menos uma das promessas de ano novo. Ou não.

Sunday, December 30, 2012

quem nunca

Você estava lá, do outro lado do bar. Uma franja curta, para não encobrir seus olhos, como você mesma dizia. Já tinham se passado cinco anos desde o nosso último encontro. E eu te olhava assim, como quem não quer nada, tentando descobrir o que já era seu e o que você tinha acrescentado ou retirado de si mesma. Muito havia mudado. E pouco havia sido retirado. Mas tinha algo igual. Algo que talvez nada retirasse de ti. Teu sorriso. Teu sorriso era o mesmo desde que tinha te conhecido no colegial. Um sorriso que eu tanto me apoiei naqueles dias mais obscuros em que bastava fechar os olhos e te ver. E eu percebi que você me olhou umas poucas vezes. Talvez querendo falar, talvez querendo apenas analisar-me do mesmo jeito que estava fazendo contigo. Até que ele chegou. Te abraçou e sentiu o perfume do seu pescoço. E a partir daí não me olhaste mais nem uma vez. E eu não conseguia tirar os olhos de ti. E foi quando eu senti a dor. A dor de saber que você estava seguindo em frente e eu parado, esperando o mundo girar e parar no mesmo lugar.

Thursday, December 20, 2012




então sinto nossos dedos entrelaçados. tento lhe guiar, mas seu perfume me guia. sei onde está o tempo todo e todo o tempo. e não consigo de você me desvencilhar. sigo meu olfato pra te encontrar. e te encontro, não sei se felizmente ou felizmente, em cada olhar. você encosta a bochecha na minha. e sussurra algo em meu ouvido, como que clamando pra que te puxe mais pra perto de mim. então eu te envolvo em meus braços e te trago aqui pra perto. nossos lábios quase colados, quase selando todo esse tempo em que eu tanto esperei pra te ter. mas não te tenho. porque a vida poderia ser mais fácil, e eu poderia estar ao seu lado. mas, antes de me despedir, eu preferi estar ao seu lado. e estarei. um pra sempre sempre será um pra sempre. independente do tempo que durar. porque nos contos de fada todos vivem felizes para sempre. esquecendo de todos os percalços que passaram para que isso acontecesse. um pra sempre não é pra sempre até que a bruxa má jogue a maldição e alguém a quebre. dificuldades sempre vão existir. e a vontade de vencê-las também. não te levo no tango hoje, mas, como o futuro é incerto, posso te levar amanhã. não tenho olhos pra te enxergar, mas tenho meu coração pra te sentir.

Friday, November 09, 2012

do coração

Um dia eu fui apresentado a ele. Na melhor das hipóteses, pra não culpar ninguém, digo que o conheci sozinho. E o pior é que foi. Eu tava ali, calmo, na minha, como se nada ao meu redor estivesse acontecendo. E aí ele chegou, naquela pisada flutuante dos pés, como quem não quer nada, e se apresentou. Não exclamei um “puta que pariu” porque decidi confiar plenamente naquele, até então, desconhecido. E mandei bem. Fui feliz. “Pra caralho” como dizem. Mas ele esqueceu de me falar sobre os defeitos que ele tinha. Ele trazia um quê de mágoa, uma certa demonstração de desafeto, por vezes uma falta de carinho, que um dia o fez desabar. Então ele chorou. Ele chorou por não acreditar em si mesmo. Por ver que aqueles ao redor simplesmente o ignoravam e se faziam não entender. Ele veio e me cativou. Mas esqueceu de me dizer que na sua partida eu sofreria. Esqueceu-se de me dizer que, em determinando momento, eu me decepcionaria. E acabou não me ensinando como tentar vencer essa decepção. Ele veio, com todas as forças, e me atirou no chão, sem me deixar, por momento sequer, levantar sem aprender a andar novamente. Esse filho da puta chegou sem avisar, fingiu me agradar, me mandou tomar no cu e foi embora sem se despedir. Mas ele me fez sentir algo que nunca senti em toda a minha vida. O amor veio, se apresentou, invadiu qualquer ambiente do meu ser, me fez sonhar, idealizar e até a me sentir usado. Mas ele mesmo disse, quando chegou, que nem todos seriam iguais a ele. Que viriam outros amores, outras dores, dentre outros entre o bem e o mal. Só que o amor é isso mesmo: é saber dos defeitos, conhecê-los e, ainda assim, sentir prazer em tê-lo em você.

Tuesday, October 23, 2012

"...até bem pouco tempo atrás..."

Nasci da solidão em que se encontrava minha mãe naquele fim de noite fria. Foi meu pai, que nunca soubemos quem foi, que a acalentou naquela noite, junto com tantos outros. Mas foi apenas dele que ela carregou a lembrança. Mesmo sem saber quem. Foi a última vez, como deveria ser. Ela não agüentava mais se entregar. Nasci da falta de pudor que aquela senhora tinha naqueles anos. Senhora, sim, pois era casada, mas se deitava com outros. Meretriz, diziam sem que seu marido se importasse. Ele não podia mesmo ter filhos. Era aleijado, como dava pra se observar. Mas ela cuidava bem dele, meu padrasto, digamos. Nasci da melancolia que invadia aqueles olhos baixos de minha mãe, que sempre quisera tanto ter um filho. Período fértil era a hora de dar por encerradas as desventuras pornográficas do centro da cidade. Era senhora, já. Estava cansada. O marido dela me deu amor, mas eu não retribuí. Sempre fui filho rebelde, afinal nasci da rebeldia que assolou a cabeça daquela mulher que sempre vivera tanto pelo conservadorismo. Nasci da luta dela pra deixar alguma coisa pro mundo. Não plantou árvore nem escreveu livro, mas fez filho. Único. Nasci por querer, sem querer. E sofri a dor de ser um bastardo para sempre nas bocas e ouvidos dos que nos cercavam. Nasci já predestinado a carregar a culpa de uma mulher que queria mesmo era transferir sua culpa pela vida para alguém que pudesse agüentar o que ela não agüentava mais. Nasci culpado, por fim, sem nem saber o que era culpa. E continuo sem saber, tanto que talvez não agüente mais.

Monday, September 03, 2012

aquele verão

- teve um verão, minha filha - começou o pai para a filha de dezessete anos, que havia acabado de terminar um relacionamento e achava que o mundo tinha acabado - lá pelos meus vinte e três anos, em que o mundo desabou. eu fui de encontro ao chão em questão de horas, minutos, segundos. numa atitude insensata eu consegui fazer minha vida virar ruína naquele momento. e dali foram se passando dias, semanas, meses. eu perdi as esperanças, sabe? cheguei a desistir de procurar um sentido pras coisas. a única certeza que eu tinha era a de que não haveria recuperação. até mesmo depois do retiro na qual passei pouco mais de quinze dias eu achei que definitivamente nada haveria de melhorar. e então eu segui com a vida. e as coisas começaram a se encaminhar. devagarzinho, sem que eu mesmo percebesse. tudo foi se encaixando, aos pouquinhos minha vida foi voltando ao normal. eu sofri muito durante pouco mais de seis meses. mas o sofrimento foi diminuindo a partir daí.
- eu não aguento um ano, pai.
- eu achava o mesmo, ana. mas eu aguentei. foi daí a maior lição que eu tirei da minha vida. a gente nunca vai receber de Deus um fardo maior do que possamos carregar. infelizmente a gente só percebe isso depois que tudo passa. eu não estou falando tudo isso pra você simplesmente deixar pra lá que passa. depois de se encantar, você precisa passar por todo o processo: a decepção, o sofrimento, a aceitação, a redenção e, por fim, a liberdade. mas você é minha filha e meu trabalho como pai é apenas mostrar uma parte do caminho. e, se alguma coisa quiser te machucar, reza. talvez eu não tenha confiado tanto nisso naquela época e por isso passaram-se tantos meses para que as coisas melhorassem. mas depois que tudo aconteceu, eu sempre rezo pra agradecer por tudo que Deus veio me proporcionando todo esse tempo.
- só isso? rezar?
- não, meu amor, rezar é só uma parte de tudo isso. você tem que aprender, cair no chão pra levantar, ter auto-crítica, literalmente se tornar independente. não que você não vá precisar das pessoas. mas antes disso acontecer você tem que precisar de si mesma primeiro. confie em você. assim as coisas hão de melhorar. eu amo você. e estou aqui para o que precisar. mas saiba que na hora que eu souber que alguma lição você vai tirar da situação, eu vou deixar você ir lá sozinha. aqui, no nosso mundo, a gente só cresce assim. tenta dormir. amanhã é um novo dia - completou lhe dando um beijo na testa.
- boa noite, pai.

Sunday, September 02, 2012

bilhetes

Cheguei. Era tarde já. Você dormia em nossa cama. Eu estava sem sono. Acabei por, na ponta dos pés, colocar o nosso pufe próximo da cama e sentei-me nele pra te admirar. Tentava não fazer barulho nem com a minha respiração. Tudo pra não atrapalhar seu sono. Lembrei da primeira vez que dormimos juntos, depois daquele primeiro mês de namoro. Você relutou bastante e eu acabei tendo que ficar mais de um mês sem dormir com ninguém. Sim, porque te fui fiel desde o dia em que te conheci. Nunca te traí nem por pensamentos, que foram todos seus. E foi uma noite maravilhosa. Fizemos amor de uma forma tão conectada que não sei como não ficamos ali para sempre. E aí naquele dia você acabou me fazendo café da manhã, lembra? Acordou mais cedo, foi ao mercado, arrumou a mesa inteira e me deixou um bilhete de bom dia antes de voltar pra sua casa. Agora moramos juntos. E eu talvez ande trabalhando demais. Então talvez seja a hora de eu retribuir o carinho. É por isso essa mesa toda posta essa manhã. Eu amo você, meu amor. Bom dia!


Seu,
Augusto

Tuesday, August 21, 2012

Sinal

Eles se encontram no sinal vermelho. Ele se lembra: o passado os une. Ela não lembra, e liga o som. As lembranças trazem de volta aqueles momentos em que estavam sozinhos. A música a distrai. Ela dança com os ombros. Ele se perde no rosto, nos movimentos, na delicadeza. Ela muda a música e olha pro lado. Ele vira o rosto pra frente, mas os olhos se encontraram. Ela lembrou. Sinal verde. Ele parte desesperamente. Ela acorda das recordações com os carros que buzinam atrás. Até logo. Até breve. Ou talvez nunca mais.

Lili

já faz tanto tempo eu sei
oito* anos se passaram
mas parece que foi ontem
que você se foi

eu ainda era uma criança boba
que não conhecia a vida
como conheci aquele dia:
o dia da sua partida

você não era tão alta
mas eu só alcançava a sua cintura
e aquele sorriso seu
que eu bem conhecia

de onde você está
eu sei que olha por mim
e a sua lembrança
faz minhas lágrimas caírem

"vem pra cá, o que você quer ganhar
vai dormir, já já deve acordar"
e me olhava sumir na esquina
da varanda da sua casa


*hoje são quase quatorze.

Friday, May 11, 2012

aprendendo a voar


subiu, deixou cair a pena que segurava há tantos anos.
e dali a pouco, soube quando deveria sorrir sem se preocupar.
os mistérios embalados nas canções,
e os pródigos que insistiam em voltar
abriu os braços ali mesmo
onde o sol seria visto pela primeira vez

-vai, que o vento te leva!

primeiro

amar a si próprio. depois vem o resto.

Thursday, May 10, 2012

au

Eu não pedi pra ver, porque já aprendi bem que quem procura acha. Um quê de malícia, troca de farpas, de olhares, de, talvez, bobagens no ambiente. E o caminhar inocente de um cachorro até o poste sempre utilizado para suas necessidades. Foi aquele pobre cachorro que me chamou atenção. Andava em passos firmes, cabeça erguida, orelhas em pé. Tem pedigree pensei. Seguia calmamente o caminho até parar abruptamente, olhando fixo para seu destino - ê, lelê. A cadelinha outrora sua passeava de rabo encostado com outro cão. Percebi suas patinhas bambas. E, logo em seguida, uma delas curvar e fazê-lo cair no chão. Os dois cruzaram com o pobre cachorro e um único au foi o que ele ouviu da cadelinha. Todas as vezes que fui àquele lugar, inclusive hoje foi um deles, eu vejo o pobre cachorrinho deitado na calçada, com a patinha ainda manca. Ninguém tratou de consertar.

Thursday, April 19, 2012

dos sonhos um

Olhei pro porta-treco da porta e de lá tirei um espírito-santo. Vinha colorido, com fitilhos variados, encantando o entorno de um aramado que o protegia. Reconheci ali tua delicadeza. Aquela mesma que vez ou outra, querendo ou não, você deixa transparecer. Me embebedei de dúvidas. Se te ligava, se te encontrava, se te beijava, se te amaldiçoava, se me beliscava pra acordar daquele sonho. Não soube escolher. Mas já estava com o telefone em mãos, como se Deus ali o tivesse posto. E ouvi tua voz, do lado de lá, dizer alô. Do lado de cá eu não sabia se agradecia, se me deixava envolver, se me permitia lidar com a insegurança de, de repente, ter ficado feliz com tal gesto. Sorri. E meu sorriso lhe foi percebido. Porque, do lado de lá, tu sorristes também, eu percebi. A gente sabe quando alguém sorri do outro lado. Agradeci pela lembrança. Não entendia como ela tinha ido parar ali. E nem você quis dizer. Talvez eu tenha deixado a porta do carro aberta enquanto comprava o sanduíche ali do lanche da praça, onde estava antes de qualquer outra coisa. Você só disse que não precisava agradecer. E que me amava. E talvez isso tenha se tornado algo tão inimaginável que eu nem acreditei. Mas senti necessidade de dizer o mesmo. Não uma obrigatoriedade. Mas antes que te dissesse, talvez tenha sido Deus, eu acordei. Despertei e, quando fechei os olhos novamente, não consegui te ver mais. Você já tinha ido.

Friday, March 16, 2012

imaginar é a forma que Deus encontrou de nos fazer sonhar acordados.

Tuesday, March 13, 2012

a espera

Era nove horas da noite. O relógio de parede fazia seu tic tac costumeiro. Marcos estava sentado na poltrona, a poucos metros da porta de entrada de sua casa. Esperava sua esposa chegar para que pudessem jantar. Tinha feito um spaghetti aquela noite. Os pratos estavam postos, as taças de vinho também. Aguardava ansiosamente por aquele encontro diário.

Tinha conhecido Cíntia há mais ou menos dez anos. Casaram cedo, com poucos meses de namoro. Mas tinham certeza que o encontro deles era obra do destino. Se complementavam plenamente e viviam em perfeita harmonia. Ele trabalhava em uma empresa de prestação de serviços. Ela era secretária em um consultório psiquiátrico. Entrava no trabalho às duas da tarde e chegava em casa pontualmente às nove horas da noite.

Não era do seu agrado que ela trabalhasse até tão tarde. Mas, diferente de muitos outros maridos, nunca desconfiara de sua esposa, apenas respeitava sua escolha de trabalhar daquela forma. Ele sempre a esperava com a mesa posta. Gostava de cozinhar e, se fosse pra ela, sentia mais prazer ainda. Os dois sentavam juntos, falavam sobre o dia que passara e iam para o quarto de mãos dadas.

Já eram nove e meia e ela não tinha chegado. Marcos baixou a cabeça, derramou algumas poucas lágrimas, levantou-se e seguiu para a mesa. Serviu os dois pratos, mas não conseguiu dar uma garfada na comida. Já fazia mais de um mês que ela não entrava por aquela porta. Já fazia mais de um mês que ele, pontualmente, esperava seu retorno.

Cíntia nunca voltou. Seu túmulo não tinha flores. Marcos nunca aceitou que ela tivesse partido. Esperou ela entrar por aquela porta todos os dias. Até que ele mesmo não entrasse mais por ela.

Monday, March 12, 2012

não sou, nunca disse que era, nunca desejei ser

Eu não sou o cara perfeito. Nunca disse que era. E preferi me esconder no anonimato que viver a vida para as outras pessoas. Mas eu também não me escondi. Apenas não apareci. Não prometi que voltaria, muito menos que meus erros se repetiriam. E na verdade o que eu espero é acertar. Não sei o quê, não sei onde. Guardo minhas recordações no meu quarto e deixo aquilo que não quero lembrar do lado de fora. Da porta pra cá sonhos, da porta pra lá apenas o desejo de sonhar. Gostaria de sonhar todas as noites, mas como já disse não vou o cara perfeito. Na verdade nunca desejei ser. Não adianta me consertar. Até porque não tenho o que consertar. Apenas tenho defeitos também. É isso que me faz humano. Sobrevivo à opinião alheia que me condena e tenta me fazer sentir mal. Mas prefiro viver aquilo que contagia, acrescenta e me deixa bem. Talvez seja difícil conviver comigo. Ou talvez eu não queira conviver com você. Infelizmente não fomos nós que escolhemos ser do jeito que somos. Porque, como eu já disse, não sou o cara perfeito. Nunca disse que era. E nunca desejei ser.

meninatani

- Ei menina! Pra que toda essa pressa? Vai tomar remédio, fazer exame? Não? Então te acalma. Calma aí que o tempo corre devagar e você deve aproveitar. Tomar um sorvete, quem sabe? Ah, ok. Gripe. Então passear pelo parque? Dor nas pernas... Hm. Ler um livro, ver um filme, folhear uma revista? Não? Poxa, assim fica difícil. Tudo é um problema pra você. Que cara é essa? Heim? Vai chorar por quê agora? Ah! Levanta essa cabeça aí, para de onda. Ei! Ei! Que tristeza é essa? Olha pra mim. Levanta a cabeça, olha pra mim. Porquê todo esse choro? O que é?

- Carinho. Só quero carinho.

E todo aquele sofrimento foi sanado por um abraço. Um abraço único, reconfortante. Nada mais era capaz de a atingir. Desistiu dos remédios que guardava na gaveta. Sua única overdose seria de sorrisos. Estava disposta a conquistar novamente todos os sorrisos alheios.