Tuesday, November 18, 2008

expectativa

- Então, a gente pode se encontrar no restaurante?
- Pode sim. Acho uma ótima idéia.
- Quer que eu vá te buscar?
- Não, não precisa. Meu amigo vai sair e peço pra ele me deixar lá. Só vou querer carona de volta pra casa, tudo bem?
- Ah, ok. Até oito e meia então.
- Até.
Era a terceira vez que se falavam, apenas. Sempre diálogos curtos, sem muito conhecimento um do outro. Aguardavam pelo primeiro encontro para que não faltasse assunto. E, mesmo assim, ainda achavam que faltaria. Luís estava mais ansioso. Pra variar. Já tinham trocado olhares outras vezes, conheciam-se de vista, mas nunca tinham tido um contato pessoal.
Por volta das oito e meia, Luís já estava à espera de Rita. Sentado em uma mesa com duas cadeiras, ele tomava uma taça de vinho. Imaginava como ela seria, o que gostava de fazer, quem seriam seus amigos, se morava com seus pais. Não sabia como começar a conversar, afinal era a primeira vez que saía para algo assim.
- Boa noite.
- Oi Rita. Boa noite. Senta.
- Obrigada. Tudo bem com você?
- Tudo. E você, vai bem?
- Ah, claro.
- Então, você quer comer o quê?
- Hmm... Pensei em uma macarronada.
- Ótima idéia.
Chamaram o garçom e fizeram o pedido. Luís serviu a taça de Rita com vinho.
- Er, quantos anos você tem?
- 25 e você?
- 20.
- Novo heim?
- Ah, o que são cinco anos de diferença depois dos 15?
- É, idade não é nada. Cabeça é o que importa. Você estuda?
- Sim, faço faculdade.
- Trabalha?
- Também. E você, faz o que da vida?
- Bem, há um ano terminei a faculdade de agronomia. Agora estou fazendo pós e trabalhando em um escritório. Você faz faculdade de quê?
- Direito.
- E faz direito?
- Bem, não tanto quanto deveria.
- Você não entendeu...
Luís fez como se não tivesse entendido e mudou de assunto.
- Esse seu sotaque... Você não é daqui, é?
- Não, sou do interior de São Paulo.
- E mora aqui há quanto tempo?
- Faz cinco anos.
- Por conta da faculdade?
- Não. Tava afim de outros ares. Um amigo me falou sobre o Acre e eu tinha muita vontade de conhecer. Aproveitei a vinda, larguei a faculdade de Publicidade que eu fazia lá e resolvi cursar agronomia.
- Chutou o balde?
- Mais ou menos.
- Sou louco pra fazer isso.
- E por que não faz?
- Medo.
- Medo? De quê, rapaz?
- Sei lá. Sabe quando você quer se arriscar e não tem coragem? Seu maior desejo ficar par a par com seu maior medo? É mais ou menos assim.
- Ah, Luís. Você não pode ser assim. Temos que vencer nossos medos.
- Eu sei. É isso que eu estou fazendo agora, aqui com você. Estou vencendo meus medos.
- Fico feliz em saber disso – Rita sorriu sutilmente, sem graça.
- Seu sorriso é bonito.
- Obrigada.
O jantar chegou e os dois preparam-se para comer. Luís criou coragem e se atreveu a perguntar o que queria há algum tempo:
- Você é comprometida?
- Será que eu estaria com você aqui, jantando, se fosse?
- Ah, algumas pessoas fazem isso tranqüilamente.
- Então espero que a partir de hoje você perceba que eu não sou como as outras pessoas.
- Desculpa.
- Não, eu entendo. É a primeira vez que você sai assim com alguém, não é?
- É – respondeu ele, abaixando a cabeça com vergonha.
- Não sinta vergonha. É bonito. E, sei lá, fico lisonjeada que seja comigo.
Enquanto comiam, eles trocavam alguns olhares, rindo das bocas meladas com molho do macarrão. Levaram cerca de meia hora para terminar o jantar, pedindo a conta em seguida.
- Você quer mesmo ir direto pra casa, digo, quer dar uma volta?
- Não, acho que prefiro ir pra casa mesmo.
- Ah, tudo bem – ele consentiu meio entristecido.
Rita explicou o caminho e eles continuaram a conversa, agora já falando de família, viagens, ex namorados e namoradas, e do dia-a-dia na cidade natal de Luís. Chegaram em frente ao prédio onde Rita morava:
- Obrigado pelo jantar, você é uma pessoa adorável.
- Não quer entrar?
- Não seria incômodo?
- Estou sozinha. A mim com certeza você não incomoda.
- Hehe, ta certo.
Os dois subiram as escadas, calados. Aquela era a hora onde não se sabia o que viria depois. Era imprevisível o que aconteceria depois da porta do apartamento. E eles dois sabiam disso.
- Você quer alguma coisa, uma água, um vinho? – ela perguntou educadamente.
- Você.
Os dois entreolharam-se. Até mesmo Luís se impressionou com a facilidade com que havia dito aquilo. Rita estava ansiosa por aquele momento a sós. Ele puxou-a para mais perto e deu-lhe um beijo. O primeiro. De repente a coisa ficou mais quente. Os corpos colados encostados na parede. As mãos de um perdidas, sem parar de se mover pelo outro. Agora, mais do que nunca, Luís sabia qual seria seu futuro.

Monday, November 17, 2008

Certas diferenças podem ser mais semelhantes do que se imagina.
Quando a escolha começa o paraíso acaba, a inocência acaba, pois o que é o paraíso senão a ausência da necessidade de escolher?
Arthur Miller

do passado VI

a lua cheia reluzia no céu.
e os cabelos negros de Aurora balançavam enquanto corria.
o medo tomava conta dela. fazendo-a sumir nas sombras.
e a escuridão passou a se tornar maior.
-socorro, socorro
mas ninguém a escutava.
e um tiro, vindo de trás, silenciou todo o barulho que antes se fazia ali.

Sunday, November 16, 2008

do passado V

foi tudo muito rápido. ainda ontem éramos bebês prestes a sair do ventre de nossas mães. e enfim os anos se passaram. de repente algumas coisas passaram a fazer mais sentido do que outras. algumas outras coisas perderam o próprio sentido. e a maioria delas ficou no ar, naquela dúvida do que deveria ser. há mais ou menos um ano atrás, o artur que vocês vêem hoje não existia por completo. na verdade ele era mais sonhador, mais apaixonado por tudo, mais sentimental e, talvez, menos errado. o que aconteceu comigo esse ano, num processo que vem desde o ano passado, teve seus momentos bons e seus momentos ruins. infelizmente as coisas ruins são tão ruins quanto se possa imaginar. amizades que foram e voltaram. um santo que virou diabo. eu não sei o que mudou nesse um mês que passei fora, mas ao chegar eu senti aquela mudança nos ares rio branquenses. talvez por ter ficado tanto tempo fora, tenha dado pra refletir à respeito de certas coisas, certos atos, certas escolhas e certas vontades. alguma coisa mudou realmente. e eu, sinceramente, não sei explicar o que foi. apenas que me parece que para melhor. eu cheguei com outros objetivos, com outros pensamentos. não à respeito de tudo, mas à respeito daquilo que mais me preocupava. e à conclusão que eu cheguei foi a de que para que algo melhore, é preciso haver mudanças. hoje eu trago, provavelmente, uma fama nas costas. e não vejam essa fama como algo bom. mas é algo que pode ser mudado. aquela história de juntos para sempre, de amizade duradoura, só dá certo quando as amizades querem realmente sobreviver. e, claro, quando são verdadeiras amizades. eu decidi dar valor à certas coisas que tinha deixado de lado. e resolvi cuidar para que as coisas deêm mais certo. sem precisar que os erros venham em tamanho XXL. basta apenas uma fagulha de erro, e eu garanto que a fogueira de acerto vai ser bem melhor. já faz algum tempo que venho pensando nisso. e hoje é quarta-feira. não, não. não vou esperar até segunda fazer mudanças. qualquer dia é dia de começar de novo. e nada melhor do que uma quarta-feira, 2 dias antes do fim-de-semana. pra quem leu até aqui, obrigado. ;)

16/08/2006
Quem nos decepciona não necessariamente não presta. As vezes, a decepção é provocada por nós, que esperamos das pessoas além do que elas podem nos dar.

Gisela Gold

do passado IV

a felicidade se completa, e os seus sorrisos me fazem crer que sozinho é aquele ser que não abriu nenhuma porta pra que alguém entrasse, que não deu passagem pra um senhor idoso da fila do banco, que não esperou 5 segundos depois que o sinal abriu pra que aquele jovem atravessasse a rua, e que, principalmente, não conseguiu dar nem um pouco de si para que a outra pessoa se lembrasse sempre do seu sorriso.

lixo

esse filme eu já conheço:
junto com a limpeza do quarto sempre vem a limpeza na vida.

bicão

entrou sem convite, mas conseguiu fazer a festa.
agora é convidado vip.

Friday, November 14, 2008

viagem

vou seguir o vento, até onde ele fizer a curva.

dormindo

- Sai daqui!
- Não.
- Sai, pelo amor de Deus! – seus olhos enchiam de lágrimas e sua voz quase não saía mais.
- Por quê você está assim?
- Você não entende, não é? Você nunca entende.
- Eu tento, eu tento.
- Você não faz a mínima questão de entender – as palavras ficavam quase que perdidas na garganta.
- Eu não entendo porque você acha isso.
- Simplesmente pelo fato de você não dar a mínima.
Sua alma encheu-se de coragem naquela hora.
- Querer você é não dar a mínima? Querer ficar com você é não dar a mínima? Sentir sua falta, tremer as pernas e querer te ver todos os dias é não dar a mínima?
Henrique ficara perplexo. Não esperava ouvir aquilo. Era a última coisa que imaginava ouvir naquele momento. Seu choro foi cessando, até que se desvencilhou em um singelo sorriso:
- Eu... eu...
- Desculpa, mas eu não sabia como chegar e te dizer isso.
- Estou sem palavras.
- Não precisa dizer nada – chegou mais próximo de Henrique, passando a mão em seu rosto, acariciando-o.
Os olhos fecharam e as bocas se encontraram. Sentiram os corações pulsando mais forte e as pernas tremerem.

Thursday, November 13, 2008

peso na consciência

- Lembra o que aconteceu na segunda-feira?
- E como eu haveria de esquecer?
- Lembra, também, que um dia antes, no domingo, ele veio aqui?
- Lembro.
- Lembra as coisas que você falou pra ele?
- Mais ou menos. Mas o que diabos isso tem a ver com alguma coisa?
- Tem a ver que aconteceram algumas coisas antes da conversa de vocês. E na conversa de vocês, aliás, as coisas que você falou pra ele devem ter machucado muito.
- Ah, isso é porque ele ainda gosta dela.
- Puta que pariu! Será que você não entende nada do que eu quero dizer?
- ...
- Pensa um pouquinho, mas só um pouquinho, nas coisas que você falou pra ele que poderiam levá-lo a fazer algo daquele tipo. Não que seja culpa sua, mas pensa no que pode estar machucando-o.

De repente a bigorna que habitava minha cabeça, resolve dar uma volta pela cabeça de outras pessoas. Sem tanta necessidade, afinal não foi culpa delas.

à espera de um milagre

Sem saber o que fazer ele contava os minutos à espera daquele telefonema. O sol, prestes a esconder seus raios no fim da tarde, queimava levemente sua pele. Acendeu um cigarro para que o tempo passasse mais rápido. Sabia que seu telefone não ia tocar, mas sua esperança sempre era a última a desfalecer. Que sentimento era aquele que insistia em permanecer em seu coração?

Aumentou o volume do som para tentar fazer com que seu corpo absorvesse a música. Trazia recordações de tempos anteriores àquele que vivia agora. Tempos em que a vida era mais fácil, quase não tinha problemas e bastava saber da existência. Olhou-se no espelho e percorreu todo o seu rosto, constatando o quanto envelhecera naqueles anos da faculdade. Tinha sede de viver, viver com a mesma intensidade que, outrora, o acompanhara.

O telefone tocou. Sentiu o coração bater mais forte, a respiração ofegar e as mãos tremerem. Um fio de medo cortou-lhe a garganta. Não era quem esperava que fosse. E era incrível como ainda não se acostumara com aquilo. Sabia. Sempre soube que a ligação nunca viria, mas tinha medo de desistir e acabar perdendo. E perdeu. Perdeu seu amor-próprio, como nunca o tinha feito anteriormente.
a sensação da espera por algo que nunca vai chegar é a pior coisa de se sentir.

o gosto amargo do teu corpo

Faço nosso o meu segredo mais sincero
E desafio o instinto dissonante.
A insegurança não me ataca quando erro
E o teu momento passa a ser o meu instante.
E o teu medo de ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão
Teu corpo é meu espelho e em ti navego
E eu sei que a tua correnteza não tem direção.

Daniel na Cova dos Leões - Legião Urbana

Wednesday, November 12, 2008

superação é a chave para o sucesso!
já dizia minha amiga consciência x)

do passado III

quem será que irá voltar pra ver,
como eu, tudo o que hoje aconteceu?
ver bater aviões no ar
ver chover do céu estrelas do mar
caminhar na beira qualquer
ver ruir toda a fé
justiçar com as próprias mãos
sem saber onde chegar
qual caminho seguir
e uma resposta que espera
que parece nunca vir

diálogos

- o que você faz com as pessoas erradas?
- ah, eu curto com a cara delas.
- sauhushaushuahsuaushahsausuahus
- sei lá, acho que não tem essa de pessoas erradas - pára um pouco pra pensar - aliás, elas existem sim. e o pior: pessoas erradas em momentos errados.





ê 2008!


L I B E R D A D E


quem você tem

Era tarde da noite. A lua refletia na piscina de águas límpidas para a qual ele olhava do alto do seu quarto. Estava cabisbaixo, sem entender exatamente o por quê de estar vivendo tudo aquilo. Dúvidas, quase certezas e medo. Sentimentos que assolavam seus pensamento naquele instante. Não entendia como um rapaz tão bem sucedido como ele poderia passar por aquelas dificuldades. Provação? Sim, tinha que passar por dificuldades para dar valor a outras coisas. Egoísmo? Também, por achar que aquilo não deveria acontecer com ele.
- Marcelo!
Ouviu a voz de Lina chamar seu nome. O que será que ela queria àquela hora? Há alguns dias que eles não se viam, mas haviam marcado de almoçar juntos no outro dia. Lina era uma amiga de infância, pela qual ele tinha muito carinho, respeito e amor. Mas, definitivamente, ele não queria ver ninguém. Nem ela. Isso até lhe doía o peito, mas seu peito mesmo dizia para que ficasse sozinho por um tempo.
- Marcelo!
Ele a conhecia: ela não ia desistir. Resolveu sair da sua introspectividade e foi ao seu encontro. Desceu as escadas devagar, com esperança de que, pela demora, ela fosse embora. Não foi. Estava lá, na porta, parada à sua espera.
- Porque demorou tanto?
- Desculpa, estava no banheiro. O que aconteceu?
- Nada. Só queria ver você.
- Mas a gente não combinou de almoçar amanhã?
- Eu sei, eu sei. Mas sabe aquela pontada que eu sinto no coração?
- Aquela que avisa quando algo vai dar errado?
- É. Essa mesmo.
- E o que isso tem a ver comigo?
- Eu tava guardando umas fotos antigas e me deparei com uma nossa, há uns quatro anos atrás.
- E?
- E foi nessa hora que eu senti uma pontada. Saí de casa o mais rápido que pude, ágil para que ninguém pudesse perceber.
- Ah, mas está tudo bem.
- Como se eu não te conhecesse. O que está acontecendo?
- Nada.
- Vai mentir pra mim? – Olhou-o nos olhos, fitando-os compulsivamente. Sabia que daquela forma ele se abriria com ela.
- Estou com um turbilhão de coisas na cabeça. São muitas coisas para pensar, muitas coisas para se fazer. Muitas atitudes a serem revistas. To preocupado.
- Preocupado com o quê, especificamente?
- Com a minha felicidade.
- E o que eu posso fazer para vê-lo feliz?
- Apesar da minha insistência em não querer ver ninguém, só em você ter vindo aqui já bastou para fazer meu dia melhor.

virgo

Você preza pela estabilidade e durabilidade dos relacionamentos. Por laços profundos de afeto. Mas deve refletir se não está agindo com medo da solidão. O amor é um vínculo que se quer liberto das tradições e preceitos sociais. Amor e criatividade são temas evidenciados.

do passado II

o suor dos corpos
teu cheiro no meu
com os olhos fechados
e a imaginação

o gosto do beijo
teus braços nos meus
como se fosse o último abraço
e a única saída

o adeus que vem breve
teus olhos nos meus
fitando-os profundamente
e a saudade

do passado

é difícil, o quanto é difícil
a vida prega peças
e a gente nem sabe, nem sonha
que essa é a realidade

deixei a porta aberta
e não vi você entrar
eu to aqui sozinho
naquele mesmo canto
em que nos encontramos pela última vez

Thursday, November 06, 2008

o susto

O suor fazia sua pele arder. Ardia como fogo onde ele outrora havia arrastado a lâmina fria em forma de cruz. O líquido rubro e viscoso escorria em uma mistura de sal e ferro que não se sabia para onde iria. Revirava os olhos, alucinado, fraco, quase morto. Mas morto daquela vida. Precisava acordar de novo, renascer das cinzas, como fênix. E assim o fez. Com a ajuda dela, aquele anjo que o concebera, ele reergueu-se. Ela abriu suas asas e o protegeu de todos os males, por aqueles tristonhos momentos. Mesmo sem nada entender. Lá estava ela, ao seu lado, como sempre esteve. Ali permaneceu, em corpo ou em pensamento, pedindo para que se cuidasse. Ele não conseguia dizer nada. Estava mudo, bêbado e desesperado. Mas conseguiu ver seus olhos banhados em lágrimas, tristes, clamando por alguma palavra. Dali tirou forças para dizer o que achava ser mais propício àquela hora:

- Obrigado, mãe.

Wednesday, November 05, 2008

inesperado

- eu chorei a semana inteira pensando no que eu ia fazer sem você aqui.
agora as lágrimas saíam dos olhos daquele que ouvia atentamente o outro falar.
- eu preciso de ti, cara. eu te amo.
em meio às lágrimas, brotou um sorriso. que não era apenas um sorriso, mas uma forma de, sem palavras, ele dizer que sentia o mesmo.





acima de qualquer coisa, obrigado.

Monday, November 03, 2008

r.o.

já discordei muito de um amigo que ousava dizer para mim que 'tudo é fase'. não acreditava que aqueles amigos iriam partir, que alguns se distanciariam, que aquele momento trágico poderia melhorar ou que aquele ótimo teria algo de ruim depois. hoje eu vejo fotos antigas, fazendo uma retrospectiva de uns nove anos atrás. muitos amigos partiram, muitos se distanciaram, muitos momentos trágicos melhoraram e muitos momentos ótimos trouxeram algo de ruim. 'tudo é fase' dizia ele, e eu não acreditava, apesar de já ter vivido muitas dessas. talvez seja pela maturidade que vimos adquirindo ao longo do tempo que passamos a acreditar nisso. por isso faço o possível para que cada dia valha tanto à pena quanto aquele que virá daqui um ano, em outra fase da vida. nós vivemos fases, somos feitos de fases. existem aquelas que duram mais, outras que duram menos. outras, ainda, que perduram pela vida inteira, até o dia em que seu corpo morre. mas 'tudo é fase'. hoje eu acredito.
'eu cheguei à seguinte conclusão: se o amor é verdadeiro, não existe sofrimento.'
renato russo

Thursday, October 30, 2008

acima de qualquer coisa

o melhor da vida, além de viver, é ter pessoas com quem contar ao seu lado. dar as mãos ouvindo que os laços não se soltam jamais. que tudo será enfrentado junto, ali, ao lado. quando precisar. amor incondicional. além do sangue. além de qualquer outra coisa. apoio. agradecimentos são poucos. o mínimo é aquele velho obrigado. que já diz muita coisa. maior (não) abandonado. com os pés no chão. cabeça, de vez em quando nas nuvens. e agora felicidade quase que completa. ao se sentir cada diz mais livre. liberdade.

Wednesday, October 29, 2008

do burrico II

O burrico, talvez até tarde demais, decidiu percorrer o caminho da mata fechada. Percebeu que, por mais que conhecesse o outro caminho a ser seguido, era mais interessante arriscar-se. Ali poderia descobrir coisas novas, n'um mundo que nunca havia sido o seu. Lembrou-se de quanto sonhou com o que estaria por trás daquelas árvores, olhando através da cerca fechada. E decidiu. Estava à risco de se arrepender, mas seu pensamento evocava aquilo que tornou-se clichê em bocas transgressoras: arrependeria por ter seguido, mas pensava que seria pior se arrepender de não ter ido. Sumiu. Aqueles muitos que o olhavam não sabem o que aconteceu. Não sabem se ele está bem, se não está, se ainda vive ou se morreu.

mas eu sei que um dia a gente aprende

'...se você quiser alguém em quem confiar
confie em si mesmo
quem acredita sempre alcança...'


mais uma vez - renato russo

Tuesday, October 28, 2008

desiderata

para quem não quiser ler, a versão declamada:


siga placidamente por entre o ruído e a pressa e lembre-se da paz que pode haver no silêncio. tanto quanto possível, sem sacrificar seus princípios, conviva bem com todas as pessoas. diga sua verdade serena e claramente e ouça os outros, mesmo os estúpidos e ignorantes, pois eles também têm sua história. evite pessoas vulgares e agressivas, elas atentam contra o espírito. se você se comparar com os outros, pode se tornar vaidoso ou amargo, porque sempre existirão pessoas piores ou melhores que você. usufrua suas conquistas, assim como seus planos. mantenha o interesse pela sua profissão, por mais humilde que seja. ela é um bem verdadeiro na sorte incostante dos tempos. tenha cautela em seus negócios, pois o mundo está cheio de traições. mas não deixe isso cegar você para a virtude que existe. muitos lutam por ideais nobres e por toda a parte a vida está cheia de heroísmo. seja você mesmo. sobretudo, não finja afeições. não seja cínico sobre o amor, porque, apesar de toda aridez e desencanto, ele é tão perene quanto a relva. aceite com brandura a lição dos anos, abrindo mão de bom grado das coisas da juventude. alimente a força do espírito para ter proteção em um súbito infortúnio. mas não se torture com fantasias. muitos medos nascem da solidão e do cansaço. adote uma disciplina sadia, mas não seja exigente demais. você é filho do universo, assim como as árvores e as estrelas: você tem o direito de estar aqui. e mesmo que não lhe pareça claro, o universo, com certeza, está evoluindo como deveria. portanto esteja em paz com deus, não importa como você o conceba. e, quaisquer que sejam suas lutas e aspirações no ruidoso tumulto da vida, mantenha a paz em sua alma. apesar de todas as falsidades, maldades e sonhos desfeitos, este ainda é um belo mundo.

alegre-se.
lute pela sua felicidade.

max erhmann

a gente é maior que qualquer razão

quem vai te abraçar?
quem vai te socorrer?
quando chover,
e acabar a luz,
pra quem você vai correr?

quem, além de você? - leoni

Wednesday, October 22, 2008

tudo não passa de um estranho sonho, onde os ventiladores estão ligados e tem merda rolando por todo lado.

vai um beliscão aí?

conselho dado não se olha os dentes

Já segui a filosofia de que ninguém tem nada a ver com a sua vida, da mesma forma que alguns meses depois cheguei à conclusão de que, sim, as pessoas têm a ver com sua vida. Não porque elas mereçam ou seja necessário que tenham algo a ver, mas porque o mundo em que vivemos é assim. Tem sempre alguém olhando pra você.

De repente, então, as coisas mudam novamente, e você se depara com aquele pensamento de: se ninguém paga minhas contas, ninguém tem nada a ver com isso. Mas como? A culpa se mistura àqueles sentimentos de receio, pecado, erro e pensamentos alheios. E você deve sobreviver. Se não, meu amigo, a coisa fode pra você.

Erguer a cabeça, olhar e pisar firme é tão difícil quanto subir n’uma bicicleta (sem rodinhas) pela primeira vez e sair pedalando. Os olhares que outrora nem se viravam para você, de repente te olham de canto, analíticos, julgando cada passo e movimento seu. É o preço, tão alto, de transgredir certas coisas.

O grande lance, cara, é você não dar a mínima. Ninguém se importa, fazem de conta que querem o seu melhor, entende? Importe-se você com você mesmo. E só. O que eles te falam, deixe que falem. Escuta aquilo que fará você crescer. O que te faz regredir deixa para trás que ninguém deve se prender a isso.

E, afinal, quem tiver que estar ao leu lado, irmão, vai estar. A hora que for, para o que for, independente de qualquer outra coisa. Mesmo que esteja longe, porque, afinal, não é necessário que se esteja junto para estar por perto.

Monday, October 20, 2008

do burrico I

Depois de percorrer quilômetros de capim verde, o burrico pára. De longe muitos não entendem por quê, se ia tão feliz e saltitante por todo o caminho. De longe muitos não conseguem ver o quê o burrico encontrou no meio de seu caminho. De longe, para muitos, o capim é sempre verde e apetitoso. Mas para o burrico não. O burrico chegou em uma encruzilhada. De repente uma escolha deve ser feita: por aqui ou por ali? É que o burrico chegou no local onde o caminho se divide: há uma porteira para o curral, com um estribo quentinho e água gelada esperando por ele; e há uma porteira para a mata fechada, da qual ele não conhece nada. O burrico fica ali parado, sem saber o que fazer, com um ponto de interrogação flutuando feito uma nuvem cinza sobre a sua cabeça.

Friday, October 10, 2008

desde criança

Sempre recebi essas coisas e sempre respondi. Não por achar que seja a coisa mais legal do mundo e que todos devam saber as coisas que você gosta, mas porque acho interessante as viajadas que se dá quando ficamos pensando no que responder. Talvez nunca tenha usado o espaço deste blog para esse tipo de compartilhamento, mas, bem, segue aí. ;) Obs.: Culpa da Giselle

*Quatro trabalhos que tive em minha vida:
Emprego mesmo só um, com carteira assinada e tudo, em uma loja de projetados. Estágio é trabalho? É né?! Então foram dois: assessoria jurídica da EMURB e assessoria de imprensa da Fundação Elias Mansour. Trabalho voluntário também? Ok! Fui membro do Núcleo de comunicação do Catraia. Yes! Deu quatro.

* Quatro lugares em que vivi:
Em 20 anos nunca mudei de cidade nem de casa.

* Quatro Programas de tv que assistia quando criança:
As Aventuras de Tim-Tim, Castelo Ra-Tim-Bum, X-Tudo e Cavaleiros do Zodíaco.

* Quatro programas de tv que assisto:
Bom, eu quase não assisto TV mais, mas quando dá eu assisto as novelas da globo, Fantástico e seriados na SKY. (Não tem mais MTV mesmo )

* Quatro lugares em que estive e voltaria:
Brasília, Fortaleza, Dourados e São Paulo.

* Quatro formas diferente que me chamam:
Tuzi, Tutu, Tuti e Bola

* Quatro pessoas que te mandam correios quase todos os dias:
Minha mãe, Rose (minha chefe), e minhas duas irmãs.

* Quatro comidas favoritas:
Faço que nem a Giselle: “Pô, só quatro?”. Estrogonofe, Lasanha, Macarronada e Churrasco.

* Quatro lugares em que gostaria de estar agora:
Brasília, São Paulo, Florianópolis ou Caribe!

* Quatro coisas que espero que esse ano eu possa:
Vamos de coisas simples e significativas, já que faltam apenas pouco mais de dois meses pro ano acabar, e as coisas materiais podem não chegar: rir mais, chorar mais, brincar mais e ... bem, deixa a última pra lá. ;x

* Quatro amigos para responder:
Toma esse pepino pra ti: Thalyta, Clara, Victor e Kaline.

Thursday, October 02, 2008

mais que mil palavras

Aprendeu a dizer com os olhos aquilo que não conseguia expressar pelos lábios. Descobrira, assim, que não precisava falar ou conversar sempre: bastava um olhar para que seus pensamentos se desdobrassem em sentimentos entendidos pelos outros. Seus sorrisos, lágrimas, desespero, saudade, estavam todos ali, expressos naqueles olhos castanhos, meio pequenos e meio grandes, cobertos por uma vasta sobrancelha.

Wednesday, September 17, 2008

vindas do céu

deixe que falem
que lhe digam
que os digam
que o maltratem

quem morreu por ti foi eu.

Friday, September 05, 2008

mais do mesmo

o título,
a vida,
como ela segue.



querer e não poder.
poder e não querer.
ou os dois.

'tudo numa coisa só'

Friday, August 29, 2008

procuro as palavras que antes eram cuspidas
enfio o dedo na goela a procura delas
vomito
e nada mais

Thursday, August 28, 2008

Monday, August 25, 2008

aprendendo a voar

subiu, deixou cair a pena que segurava há tantos anos.
e dali a pouco, soube quando deveria sorrir sem se preocupar.
os mistérios embalados nas canções,
e os pródigos que insistiam em voltar
abriu os braços ali mesmo
onde o sol seria visto pela primeira vez

-vai, que o vento te leva!

Thursday, August 14, 2008

no céu

algumas pessoas me lembram as estrelas,
belas, ao longe, mas difíceis de tocar.

Thursday, August 07, 2008

o aqui

- existem experiências que valem para uma vida inteira cara.
- é.
- estar aqui é uma delas.
- não só estar aqui. estar é só estar. o grande lance é viver isso aqui.





e, é como dizem: a primeira vez é inesquecível.

Wednesday, July 30, 2008

-maninho, num é que dizem que o céu muda de cor toda vez que os anjos choram?
-que nada, o céu muda de cor porque vai chover.
-foi isso que eu quis dizer, idiota.
-é, só que eu não acredito em anjos.

Monday, July 28, 2008

teu próprio verdugo

Morrerás, como tantos, como os peixes: da forma mais tola.

sempre há uma luz no fim do túnel
Mas ainda há chance. Sempre existe esperança para aqueles que nela acreditam.

Thursday, July 24, 2008

quando só você não basta

Fiquei a pensar que não consigo mesmo ficar sem ninguém. Me senti orfão, sem lugar para ir. É incrível como às vezes você pensa que não precisa daquela pessoa, muito menos daquela outra, principalmente naqueles momentos. E aí a vida vem te ensinar que não é bem assim.

É claro que, como todas as pessoas, quero meus momentos solitários: aqueles em que quero pensar na vida, ouvir uma música e dançar sozinho no meio da rua, encostar a cabeça na janela e olhar para o mundo lá fora. Mas, pelo menos para mim, nos dias de hoje, esses são momentos durante o dia, e não o dia inteiro.

Matar saudade daqueles que moram longe. Aproveitá-lo como se fosse só seu e de mais ninguém, nem de lá, muito menos de cá. Como se só você existisse para ele. Colocá-lo, como de vez em quando se diz, na sua bolha. Onde só você entra e sai, e onde guarda tudo aquilo que diz respeito a você. E só a você. Egoísmo, sim!

Não sou sozinho. E, que me lembre, nunca fui sozinho. Se fui, exercitei ao máximo – e isso desde criança – a me socializar com os outros: conversar mesmo quando os conheço no dia, fazer amizades para a vida inteira. Mesmo que a vida inteira signifique alguns anos, alguns meses, ou simplesmente alguns dias.

Talvez seja pretensão minha afirmar que sou bacana, agradável e divertido. Mas é assim que me enxergo, apesar da frequente melancolia que se passa na nuvem em forma de cérebro que tenho na cabeça. Entendo que diversas vezes sou chato, também. Mas isso não condiz com minha personalidade por completo.

- Oi, como é o seu nome?
- Eduardo.
- Meu nome é Luíza. Lembra de mim?
- Er...
- Estudei com você até a sétima série.
- Mesmo? Ah, você usava óculos e sentava no canto direito da sala. Bem na frente?
- Isso.
- Nossa, como você mudou.
- É.
- Eu sei que não mudei quase nada.
- Lembra de quando...

E assim vai.

com os olhos fechados

Todos os dias quando acordava, ele sentia que precisava de um lugar mais tranqüilo, onde pudesse sonhar.

Monday, July 21, 2008

vênus

- Olha, Léo, lá em cima.
- O quê?
- Aquela estrela.
- Não é estrela, é Vênus – afirmou ele secamente.
- Você está estranho. Aliás, venho te achando esquisito há alguns dias. Aconteceu algo?
- Não.
- Te conheço há anos Leonardo. Você acha mesmo que eu não saberia quando algo estranho tivesse acontecido?
- Ah Bárbara, são as coisas fora do lugar.
- Que coisas fora do lugar?
- O mundo.
- Filosofando é?
- De certa forma. Ultimamente ando refletindo sobre algumas coisas.
- Hum, que tipo de coisas?
- Já ouviu O Teatro Mágico?
- Já.
- Então, porque o mar não se apaixona por uma lagoa?
- Segundo eles porque a gente nunca sabe de quem vai gostar.
- É, é mais ou menos isso.
- Tá apaixonado?
- É Vênus.

outros tempos

É engraçado como você passa a sentir falta de coisas que achava que nunca iria sentir. De repente aquele sentimento te invade, as lembranças tomam conta dos seus pensamentos e você pára. O que foi vivido está guardado no passado, de uma forma que não haverá de se repetir. Aqueles momentos em que o tempo, de repente, parou e onde cada coisa era algo novo, uma descoberta. Dá saudade.

teorias

Um avião num céu sem nuvens é como uma vida sem obstáculos: sem turbulências, mas sem emoção.

Thursday, July 17, 2008

se for, será

Aqueles espinhos que me corroíam por dentro, hoje são a parte exterior do meu corpo. A luta foi tão grande que alcançaram a superfície, tornando-se aquela parte mais notável de mim. São esses espinhos que lhe dão a primeira impressão. Para alguns talvez a última. Mas há um caule, verde e frágil, por detrás desses algozes. Sempre há. É aqui que você conhece aquele que eu posso ser mais verdadeiramente. Quando conseguires cortar os espinhos, verá tudo aquilo que eu realmente sou, e não apenas o que eu desejo mostrar.

Tuesday, July 15, 2008

pro alto

Onde está tu a essa hora que a escuridão já engoliu a cidade? Porque ainda não chegastes em casa, se estava tão perto até pouco atrás? Sinto falta do calor de sua presença, meu filho. Sinto falta de te ouvir dizer que não demora, que chega logo.

A solidão se tornou costumeira nesses dias em que não te vi mais. Como você pôde apenas me sorrir de tão longe, de onde nem posso te ver? Mas não te assustes: logo mais tarde te farei companhia. Iremos nos encontrar como se fosse aquela primeira vez em que te vi saindo de dentro de mim.

O relógio já bate às três da manhã, quando, em meio aquele sonho, te vi voando sobre quatro rodas. Lá estava tu, de cabelos molhados, roupas rasgadas e sorriso no rosto. Que hora foi aquela em que, de repente, eu te perdi de vista? Não sei.

Sunday, July 13, 2008

quem te disse?

É, querida, eu não vou chorar por ter perdido o que nunca tive. Mas quem te disse que eu não tive? Posso nunca ter encostado um pêlo do meu braço, mas encostei todos os pensamentos possíveis que estiveram na minha cabeça.

E aquele carro que eu vi na vitrine e me imaginei dirigindo? Aquele prato saboroso que, só de lembrar, já dava para sentir o gostinho na boca? E, também, aquela gostosona de seios e bunda protuberantes que você viu na revista?

A gente só nunca teve aquilo que nunca quis.

bemad

'(...)
-porque só os loucos são livres, bárbara.
-sinceramente, não posso concordar. não sou louca e sou livre.
-não. tu é presa àquilo que te convém aceitar como normal. se assim não fosse, você largaria seu emprego hoje e ia comigo para São Paulo.
-ir para São Paulo sem perspectiva nenhuma, sem certeza do que eu posso encontrar? não, não..
-é isso que eu quero dizer quando digo que você não é livre.
-um dia tu vais aprender, léo. as coisas são não são fáceis para quem não aceita uma rotina.
-eu sei. eu poderia aprender isso de hoje para amanhã, e quem sabe mudasse de idéia. mas por enquanto, bá, eu vou. sem perspectiva nenhuma, sem idéia do que eu posso encontrar, sem saber, diabos, como eu vou comer, dormir ou viver lá. mas eu me viro.
(...)'

Friday, July 11, 2008

os trechos de uma história

- Não me importo em ser culpado pra você. Eu te amo.
- Ah, sem essa. – levantou o tronco e cruzou as pernas – Não sei se devo acreditar em você.
- E eu nem peço que você faça isso. Você é livre.
- É disso que eu tenho medo.
- De que? De ser livre?
- Não, dessa sua humildade, da sua tranqüilidade. Do seu respeito.
- Você não deveria ter medo.
- Mas não é medo de você. É medo de magoar você.
- Coisas inevitáveis essas, sabe? Todo mundo vai magoar alguém algum dia. A gente só precisa saber superar.
- Nunca vou esquecer você, aconteça o que acontecer.
- Não me interessa que você não me esqueça. Eu já fiz parte da sua vida. Faço, aliás. E isso me importa. Saber que em alguma página desse caderno de variadas folhas, meu nome foi escrito. Se você não lembrar, não interessa. Continuarei lá como sempre estive.

Thursday, July 10, 2008

em uma manhã eu leio tudo

os diálogos são mesmo interessantes, até porque meu quarto também tem cheiros e cabelos de outras pessoas. bem, meu antigo quarto, que tem mais da metade da minha vida.

da mesma forma, as fotos desbotadas, apesar de desbotadas, contam um pouco de história. e eu gosto de mantê-las assim. sem restauração. não é que as quero apodrecidas no canto da estante, mas as quero originais, com aquele gosto de bom momento.

uma árvore no sofá da sala não seria uma péssima idéia, ainda mais abaixo de nuvens de algodão. oh, seriam as nuvens todas feitas de algodão?

lembranças com cheiro de tempero. casa da tia, da irmã, da avó, e até da mãe, depois que a gente sai de casa. é o olfato apurado, que às vezes some com o cheiro do cigarro.

sou de virgem e também gosto de domingos, ainda mais dos domingos ao acaso, quando coisas inesperadas e nada programadas acontecem. será que alguém perdeu outro celular na porta do ônibus?

percebeu, criança?

Monday, June 30, 2008

iáiá

numa moldura clara e simples sou aquilo que se vê
(los hermanos)

Wednesday, June 25, 2008

é bem assim, como um cachorro que entende os limites de sua própria casa. eu entendo. mas odeio controle. não haveria nunca de ser bicho de estimação.

Monday, June 16, 2008

clausura


Enquanto espero ansiosamente pelo retorno à minha terra natal, escuto as vozes de mil consciências solitárias por entre as paredes de concreto. Os cubículos ultrapassam seus limites, vigiados por homens vestidos de cinza, prontos para acertar os corpos que ousarem se movimentar para fora do espaço no qual foram colocados. Aqui sol não nasce quadrado, mas seus raios encontram o entrave pelas formas retangulares que o aço tomou ao ser colocado. O desespero é o sentimento mais recorrente, e parece contagioso, pela forma como gradativamente se desloca entre os enclausurados. Ao mesmo tempo, a esperança assola a mente de uns poucos outros, que, dentre tantos culpados, sonham com o dia em que verão o sol nascer das janelas de suas casas.

Foto: Val Fernandes

Saturday, June 14, 2008

a sensação do primeiro lugar é ...





assim, indescritível mesmo.

Monday, June 09, 2008

(engano)

às quatro da manhã o celular toca:
-quero conversar - ela diz.
-ah, vai se fuder!
tu tu tu e o choro.

Thursday, June 05, 2008

melhor perder um pedaço de roupa na cerca do que não atravessá-la.

Tuesday, June 03, 2008

(ins) piração

a inspiração
vem de cada causo da vida
de cada verso já lido
em momento que passou

ou surge ali, repentina
de certo modo
de modo certo

Wednesday, May 28, 2008

do quarto pecado capital

Quero de volta seus olhos sujos de lágrimas
Pois ergo-me fielmente na sua tristeza,
Que transforma meu ego no que eu espero que seja.

O seu sentimento de inferioridade me fortalece,
A cada queda da qual você não se levanta.

Afunde no mais fundo dos mares,
Eu te ajudo a amarrar as pedras aos pés.

Sua desgraça será minha vitória,
E, assim, feliz serei.

Wednesday, May 14, 2008

os opostos se distraem
os dispostos se atraem
os opostos se distraem
os dispostos se atraem

(teatro mágico)

Monday, May 12, 2008

Carta Aberta à Coletividade

O Catraia é um coletivo de pessoas de várias áreas do conhecimento que enxergam a cultura como um meio de agregar, estimular, potencializar e realizar mecanismos capazes de escoar, integrar e difundir produções artísticas, educativas e culturais para o benefício da sociedade onde está inserido. Sistematizado como coletivo de cultura há sete meses, agentes culturais formam o Catraia, que por sua vez forma, com outros coletivos e grupos articulados, um circuito integrador da cultura independente brasileira, o chamado Circuito Fora do Eixo. Gerido empiricamente por um regimento interno que vem sendo formulado com e para a participação de todos os seus envolvidos, o Catraia é também um grupo aberto e heterogêneo, que vê não só na criação e aplicação de metodologias, mas também na pluralidade de seu quadro, o melhor meio de alcançar seu objetivo: o fortalecimento e solidificação da cultura independente no Acre e no Brasil.

Dentro de seu tempo de existência – e como toda agremiação que se propõe a realizar algo -, o Catraia enfrenta barreiras e dificuldades, assim como oposição por parte de pessoas que desacreditam e desestimulam a formação de um processo limpo e verdadeiramente livre, mas também capacitado e sustentável em benefício da Cultura, dos seus agentes e dos grupos que a fomentam. Faz alguns dias que nós, colaboradores do Coletivo Catraia, vimos transparecer críticas pouco válidas ao andamento desse processo. Algumas dessas críticas partem de pessoas que não tem conhecimento do que realmente é o Catraia e sua coletividade, tampouco de suas verdadeiras intenções. Outras, infelizmente, são feitas por pessoas que já tiveram um forte vínculo conosco e que por esse e único motivo, se acham no direito de deturpar o que viram e, principalmente, o que fizeram enquanto colaboradores do Catraia. Muitas dessas críticas são feitas de forma velada, através de sarcásticos e viperinos comentários, que não constroem, nem sugerem apontamentos relevantes para a melhoria das políticas de cultura comum a todos. Para nós, do Catraia, críticas desqualificadas não são novidade. Mas críticas desqualificadas feitas abertamente, sim.

Ignoram que até quando se pretende ser parcial e passional, é preciso ser primeiramente imparcial e racional

Travestindo plataformas de achaque como veículos de informação, alguns costumam alimentar a discórdia e a balbúrdia, através de afirmações sensacionalistas e perniciosas. É absolutamente compreensível que certas pessoas, alheias ao conceito, ao processo e ao trabalho do Catraia, se oponham a ele de maneira veemente por puro preconceito ou ignorância. Também é normal que essas pessoas elaborem seus pensamentos a partir de pré-concepções e argumentos truncados, envoltos nas brumas passionais do criticastro, disfarçando seus anseios escusos com falsas bandeiras de liberdade e igualdade. Essas pessoas ignoram que até quando se pretende ser parcial e passional, é preciso ser primeiramente imparcial e racional, pois nenhuma causa se mantém firme e válida sem o estudo e o conhecimento de seus contrários, sejam eles firmes, válidos ou seus antônimos.

As críticas desqualificadas feitas por essas pessoas, se apoderam das ações do Catraia, dos esforços feitos por seus colaboradores e se constroem com um único objetivo: desestabilizar os passos de quem caminha pela Cultura, através da coletividade e destruir qualquer tentativa de acerto. São críticas que ferem a autonomia e o direito de autodeterminação do Catraia e de seus parceiros, pois abordam de forma ferina e deturpada assuntos comuns a todos ali, muitas vezes ultrapassando as noções da boa convivência e da ética. Acusam o Catraia de ser sectarista e estratificador nas suas ações. Mas esquecem que as nossas portas sempre estiveram abertas, assim como os ouvidos dos que aqui estão. No Catraia somos a favor do debate. Ouvimos o que queremos e o que não queremos. Assim como somos estimulados a falar não só o que queremos, mas o que devemos. Ao contrário do que se afirma erradamente, a verdade do Catraia é feita da soma das verdades das várias pessoas envolvidas em seu processo.

O que chamam de sectarismo, nós no Catraia, e dos vários coletivos parceiros do Circuito Fora do Eixo, chamamos de seleção natural pelo trabalho. O que chamam de estratificação, nós chamamos de criação de métodos e de hierarquização de responsabilidades. O pensamento dentro do Catraia é livre, mas o caminhar é um só. Porém antes de andar, debate-se muito. E é através de debates, conversas e explanações, que chegamos sempre ao denominador comum (o consenso) que possibilita a todos nós colaboradores vislumbrar um presente e um futuro rico em possibilidades. No Catraia,a pluralidade de pessoas e, consequentemente, de idéias, assim como a diversidade de conhecimento e as diferentes realidades de seus integrantes fortalecem o grupo e seu conceito principal: a coletividade em prol da Cultura.

Algumas pessoas põem em xeque o conceito de coletividade do Catraia, acusando-o de ser seletivo. Essa afirmação em partes é verdadeira. O Catraia é coletivo pela cultura e seletivo pelo trabalho. Ironicamente esse tipo de afirmação parte
de gente que não tem o costume de suar a camisa no Catraia em prol da cultura tão defendida verborragicamente por eles. E é através do trabalho que se adquire poder de argumentação. O alinhamento conceitual e político do Catraia é voltado para o trabalho. Do músico e sua banda, ao agente cultural e seus objetivos alcançados, tudo é pautado pelo labor. O Catraia é um grupo de pessoas alinhadas ao claro pensamento de que tudo no Acre é feito com um grau a mais de dificuldade. E que por isso mesmo tudo precisa ser feito com mais garra. Sabemos das dificuldades, limitações e anseios do nosso estado. Mas também sabemos de seu potencial. Creditamos e acreditamos nele.

Somos contra o pensamento 'farinha pouca, meu pirão primeiro' e batalhamos para erradicar posturas individualistas que atravancam nosso trabalho

Além de estimular as bandas, associadas ou não, através de ações pró-ativas, como o estúdio de ensaio e a assessoria de marketing, imprensa e publicidade, o Catraia busca formas de escoagem de produção, criando mecanismos profissionais para fomentar o trabalho da cena cultural independente de Rio Branco. Com recursos próprios e das parcerias, o Catraia discute e age para que a emancipação desse trabalho aconteça para outros pontos da sociedade e do estado, não se restringido a um pequeno feudo de atuação. Somos contra o pensamento "farinha pouca, meu pirão primeiro” e batalhamos para erradicar posturas individualistas que atravancam a ampliação do nosso trabalho engajado. Entre erros e acertos, nos capacitamos. Permutamos experiências e tecnologias. E estimulamos a participação das pessoas nos diversos campos da cultura. Não detemos fórmulas, nem protocolos, tampouco a verdade absoluta. Mas sabemos onde estamos e pelo o que lutamos. Pelo Catraia, aprende-se errando e erra-se aprendendo.

Embora algumas pessoas tenham optado por criticar os processos metodológicos que vêm sendo implantados internamente no Coletivo Catraia, para nós, catraieiros, nunca nos coube julgar ou condenar os processos utilizados por essas pessoas e seus meios e veículos de informação cultural. Sempre respeitamos e continuaremos a respeitar a dimensão conceitual e de auto-gestão de todos os projetos, veículos ou grupos que trabalhem com cultura, por acreditarmos que a pluralidade se dá com respeito e todo objetivo comum deve ser alcançado de forma coletiva. Também nunca coube ao Catraia analisar ou criticar tecnicamente uma banda. Para o Catraia toda banda, independente de seu estilo, tem importância, que é medida pelo trabalho, relevância e consistência de sua postura no fortalecimento da cena de música independente acreana e brasileira.

Ao invés de colaborar ativamente, alguns preferem fazer parte do Catraia de forma equivocada. De fora, posicionam-se velada e gradativamente contrários aos passos do Catraia pelo simples motivo de não entenderem o processo ou de não fazer parte dele ou por incapacidade ou vontade própria. Sem dúvida é uma forma pouco positiva de colaborar. Compreensível até certo ponto. Confuso a partir deste. Nenhuma dessas pessoas se mostrou interessada em complementar e seguir um método. Nenhuma delas se propôs aproximar-se e contribuir para a melhoria daquilo que considera equivocado. Usando um falso discurso de liberdade, para elas o trabalho depende de como, onde, por quanto e quando quiserem. Muito fácil. Mas assim o mundo não funciona. O que chamam de liberdade, nós chamamos de falta de bom-senso.

O Catraia se preocupa com a qualidade de seu trabalho, mas leva em conta o oneroso processo de capacitação de seus envolvidos

Não existe liberdade, quando ela vem com os dois pés no desrespeito. Não existe liberdade quando ela vem no grito, no recalque ou na falta de tato e consideração. Para o Catraia liberdade é um termo de extrema importância. Liberdade se constrói com respeito e trabalho. Trabalho enobrece o espírito. Espírito nobre eleva o corpo. Corpo elevado é liberdade. E é nessa estratégia que o Catraia firma seus passos. Capacita para o trabalho através da concretização da verdadeira liberdade – aquela que termina quando a do próximo começa. Prezando pela boa convivência, confrontamos dificuldades abertamente para evitar conflitos. E trabalhamos. O Catraia se preocupa com a qualidade de seu trabalho, mas leva em conta o oneroso processo de capacitação de seus envolvidos, respeitando as limitações individuais dos mesmos e estimulando avanços.

Para nós, do Catraia, cada um que está ali tem um porque de ali estar. E para cada um há, não só poder de voz, como também poder de ação. Batalhamos pelo entendimento disso, através do aprimoramento dos mecanismos de relacionamentos interpessoais. Repudiamos, interna e externamente, qualquer demonstração de desrespeito, individual ou coletiva, pública ou não. Repudiamos a violência passiva do boato e da fofoca. Assim como também repudiamos a sectarização e a estratificação. Batalhamos pela saúde nas relações, nos debates, nos confrontos e nos enfrentamentos. Acreditamos na pluralidade, na gestão pautada por métodos profissionais e na capacitação das pessoas através da cultura e de sua cadeia produtiva. Buscamos de forma soberana e parcimoniosa, o método ideal que alie trabalho com satisfação, diversão com engajamento social, conhecimento e cultura para todos.

Atenciosamente,

Janu Schwab – Gestor de Marketing e Estratégia, Rodrigo Forneck – Gestor de Produção e Eventos, Saulo Machado – Músico associado e Gestor de Sonorização, Jeronymo Artur – Gestor de Comunicação, Karla Martins – Gestora de Administração e Planejamento, Thays França – Secretária de Relações Institucionais, Diego Mello – Músico associado e Colaborador de Comunicação, Thalyta França – Sub-coordenadora de Produção, Kaline Rossi – Músico associado e Colaboradora de Produção e Eventos, Ana Helena de Sousa, Colaboradora de Produção e Eventos, Veriana Ribeiro, Colaboradora de Comunicação, Rodrigo Oliveira, Músico associado e Colaborador de Sonorização, Santiago Queiroz – Colaborador de Comunicação, Daniel Zen – Músico associado, Colaborador da Coordenadoria de Ação Política da ABRAFIN e Presidente da Fundação Elias Mansour, Renato Reis – Fotógrafo e Colaborador do Circuito Fora do Eixo, Pablo Capilé, Marielle Ramirez e Lenissa Lenza – Espaço Cubo (Cuiabá), Marcelo Domingues - Demo Sul (Londrina), Pablo Kossa – Fósforo Records (Goiânia), Thalles Lopes – Coletivo Goma (Uberlândia).

Monday, May 05, 2008

E a saudade...

(para K.M.)

- Mas já vais? Está cedo.
- O que seria cedo?
- Talvez isso de ainda não ter vivido tudo.
- O que é um tudo pra viver? Nunca é cedo, nem tarde. Basta viver, entende?
- Quero mais tempo com você.
- Todos queremos, mas vivemos bastante. Juntos. Isso não basta?
- Não.
- Não se preocupe, você não será esquecida.
- Não tenho medo disso. Tenho medo de não ver-te mais.
- Talvez isso aconteça. Mas qual o problema? As lembranças não permanecerão?
- Sim.
- Então... Contanto que não esqueçamos um do outro, se não nos encontrarmos mais, isso não será de tanta importância. Não que não fosse bom nos encontrarmos, pelo contrário, seria ótimo, mas .
- Irei aguardar-te.
- Não, não me aguarde. Não se atormente esperando pelo dia em que eu voltar. Viva. E se surpreenda quando eu aparecer novamente. Assim, subitamente, nosso encontro poderá ser mais caloroso.
- Ah.
- Não, não chore. A não ser que seja de felicidade. Não chore pela minha partida, mas pela nossa vida. Pelo que passamos juntos. Assim, saberei que te fiz feliz.
- Gostaria de conseguir.
- Você consegue. E cada vez que o vento soprar, lembre-se que eu posso estar longe, mas mandarei beijos de boa noite e bom dia, a cada manhã e noite no resto de minha vida, assim como fiz por todo esse tempo.
- Vou sentir sua falta.
- Também sentirei a sua.

Com um abano de mãos, ela o viu seguir o caminho que aparentava ser perigoso, mas que ele, com sua eterna coragem, conseguiria transpassar. Fechou o portão e entrou. Seus dias talvez não fossem mais tão alegres, mas, com certeza, aquelas lembranças nunca sairiam de sua mente. Estava agradecida.

Wednesday, April 23, 2008

ludibridade

situações veladas
(de raiva, medo, rancor ou amor)
transformam o cotidiano
em um eterno baile de máscaras
regado a bebidas alcoólicas que as fazem cair

sou da teoria de que o lobo mau
(quase sempre)
se veste de chapeuzinho vermelho

Tuesday, April 22, 2008

em um dia nublado que passou

um mero pedido de desculpas não é solução.
apesar de, talvez, ser a única saída.
e o tempo, como dizem, nem sempre é o senhor da razão.
mas, com certeza, cura mais que muito remédio.
ou ao menos ameniza a situação.

e aquele sorriso que outrora ficou nos seus lábios,
dá lugar às lágrimas tristonhas que caem dos olhos.


indagações VIII
seria a felicidade uma matéria na qual você deve alcançar a média?

Tuesday, March 25, 2008

indagações VII

o que importa saber quem os outros são, se você mesmo não sabe quem é?
c.f.

Saturday, March 22, 2008

além

a morte tem som de rodas sobre paralelepípedos,
gosto salgado de lágrimas,
cheiro forte de flores.

Tuesday, March 18, 2008

folhas secas

meu corpo está seco,
sujo do outono
das árvores que caem
mortas no chão.
minha mão,
como já diria dos Anjos,
ao mesmo tempo que afaga,
apedreja.

ser. humano.
carente de idéias.

Tuesday, March 11, 2008

Friday, March 07, 2008

Dor

dor

dor de dente

dor de cabeça

dor de cotovelo

dor de ar...dor

dor de corno

dor de estômago

dor de amor

até morrer de

dor
era dona de uma beleza estereotipada nos clichês.
e daquelas com batom e espelho na bolsa.
bem cuidada.
subiu na vida a cargo de muito sacrifício.
vendia o corpo como quem vende água.

Tuesday, March 04, 2008

indagações VI

porque alguns acham que reclamar é melhor que fazer?

esperança

sorriu, como se não precisasse de nada mais que aquilo.
andou por algum tempo se arriscando por entre os carros,
e parou logo na esquina pra comprar um picolé.

o dia estava nublado e ameaçava chover.
mas um risco de raio de sol por ali surgia.
mesmo que o sol não fosse aparecer.

- acorda, menino, são sete da manhã.
está todo mundo na mesma catraia:
se perdermos os remos temos todos que remar com as mãos.
e juntos.
-k.m.

Monday, March 03, 2008

de um vulcão cor de pele,
rio de lava rubro-incandescente,
aquele gosto amargo
de ferro que enche a boca,
os dentes insistem em mais,
buscam algo líquido em que se apoiar
e adormecem ao lado de quem esteve ali

e já não está mais.
sorria ao novo dia que vem,
trazendo mais tempestades em meio aos raios de sol.
- não fala do que eu deveria ser pra ser alguém mais feliz
quem sabe - los hermanos

Friday, February 29, 2008

luzes apagadas
e o silêncio

na surdina daquele beco
pequenos ratos
mordazes
sussurravam as cores vibrantes

Wednesday, February 27, 2008

infância

da janela, de tão longo andar, eu podia ver que os pássaros me encaravam.
fechei as cortinas, mas eles invadiram o quarto.

pássaros azuis. com bicos vermelhos.

talvez aquela porta levasse à outro universo.
aquele perdido há alguns anos atrás.

Wednesday, February 20, 2008

pés que eram cofres

dentro dos sapatos amarrotados, envelhecidos pelo tempo, ele guardava algumas notas de dinheiro para quando fosse necessário. elas fediam a chulé.

Friday, February 15, 2008

guarda-chuvas em tons pastéis

corriam atravessando a tênue linha horizontal que divide o céu do mar;
e naqueles passos largos, não sabiam. nem imaginavam.
aquele azul se tornou cinza, um cinza escuro, da cor dos pés descalços.
mas dos pés descalços das crianças dos campos de erupções vulcânicas



ela, então, abriu os três guarda-chuvas que carregava na bolsa,
sem motivo aparente, afinal nunca chovia.
mas tinha três.
e ali se escondeu, até que tudo se tornasse vermelho.
e não era vermelho-sangue, era vermelho-felicidade.

olhos brilhando da emoção que emergia dos poros.

Thursday, February 14, 2008

fingindo ser um palácio

não sabia qual escova era a sua
e não se encontravam mais no banheiro
também não se viam. convi-viam.
ela queria dar entrada nos papéis:

-eu quero o divórcio
-tá
-eu to falando sério
-eu também
-amanhã vou dar entrada nos papéis
-não precisa, é só assinar aqui. fiz isso há um mês.
-...

traquinagens sexuais

sentia as pernas dormentes.
não era mais mulher com idade para sexo selvagem.


- e isso tem idade? - ele perguntou

Wednesday, February 13, 2008

nostalgia

do alto de seus dezenove anos, ele podia ver o primeiro andar de sua vida.

Tuesday, February 12, 2008

Nunca houve uma mulher como Clarisse - 4ª Parte


Levantou, ainda cambaleante, equilibrando-se com as mãos enfraquecidas sob a pia. Olhou-se no espelho. A única diferença de quando entrara era a cor do seu rosto, pálido. A maquiagem ainda borrada lhe deu um ar de circo. Sorriu, imaginando-se uma circense.

Foi a primeira vez que sorriu depois de tanto tempo. Sentia-se envolta em indagações, pressentimentos e uma tortura psicológica que ela mesma fazia em si. Não havia vento, mas por dentro dela era como uma tempestade.

Tratou de lavar os pulsos, o sangue já rígido em seus braços, fazendo-a pressioná-los para que ficassem limpos. A água lhe fez sentir uma dor aguda, ocorrendo-lhe fechar os olhos e morder os lábios, numa tentativa de aliviar o sofrimento.

Envolveu o corpo nu em uma toalha e voltou para o quarto. Tirou mais um cigarro do maço que jazia sobre a cama e, da mesma forma que fizera anteriormente, cruzou as pernas após acende-lo.

Apertou o botão vermelho do controle. E viu estampado na TV o que ela mais temia.

Monday, February 11, 2008

abriu o coração com a destreza de quem abre um pote de maionese.

Friday, February 08, 2008

talvez em outra vida

Era preferível que fosse o homem perfeito, que percebia cada detalhe e sempre passava despercebido por entre as gozações da vida. Era preferível que acabasse se tornando aquele que queriam que ele fosse, sem ao menos se permitir tomar um rumo diferente escolhido por ele mesmo. Era tão preferível que fosse sempre comunicativo, inteligente, bom-moço e saudável que ele não se importava. Ele já não se importava. Cansara de sorrir para aqueles qualquer-uns que fingiam se importar. Estava louco. E inconseqüente. Era louco-inconsequente. E assim que era.

Thursday, February 07, 2008

Nunca houve uma mulher como Clarisse - 3ª Parte

Abriu os olhos. A claridade da manhã importunava sua visão. Sentia-se fraca, inútil e, ao olhar seus membros superiores, percebeu-se pálida, envolta a uma mancha vermelha que tomava todo o chão do banheiro.

Porque sobrevivera?

Tuesday, January 29, 2008

Nunca houve uma mulher como Clarisse - 2ª Parte

Era um apartamento pequeno, – onde quarto, sala e cozinha ficavam no mesmo lugar – localizado numa das ruas daquele bairro periférico de nome indefinido. Cortinas encardidas tornavam a luz do sol impenetrável, fazendo com que a escuridão fosse abalada apenas pelo abajur vermelho.

Clarisse abriu a porta e entrou. A chuva fina havia deixado-a inteiramente molhada durante o percurso que fizera da parada de ônibus até seus aposentos. Deixou a bolsa em cima da mesa ao lado da porta e começou a se despir.

Sentou na cama, cruzando as pernas, e retirou da bolsa um maço de cigarros. Acendeu um, cerrando os olhos e soltando um longo suspiro. Seus pensamentos estavam além daquele apartamento. Lembrava de cada detalhe do dia que havia passado. Levantou-se e seguiu até o banheiro.

Olhou-se no espelho. Viu uma certa repugnância estampada em seu rosto manchado. Abriu o pequeno armário e de lá tirou uma lâmina. Trancou a porta – como se houvesse mais alguém ali que a pudesse ver –, abriu o chuveiro e sentou-se embaixo dele. Uma pontada de dor e um gemido suave.

A água fazia com que o sangue escorresse mais rápido.

sentimento marginal

os olhares de esperança assemelhavam-se às súplicas de perdão que ele evocava de dentro do peito. que não era o seu.

Monday, January 28, 2008

Nunca houve uma mulher como Clarisse - 1ª Parte

A noite havia caído por toda a cidade. Já não existiam resquícios do sol que passara por ali durante o dia. Alguns cachorros uivavam à lua, enamorando-a. Os carros movimentavam-se pela estrada, enlouquecidos, como que estivessem fugindo.

O bar ficava ali, à beira da estrada, solitário. Era um local sem pudores, sem preconceitos, onde ricos, moribundos, prostitutas, universitários, homossexuais e travestis se encontravam sem olhares recriminadores. A música, ambiente, mantinha o ruído de fora abafado. E todos podiam trocar palavras tranquilamente.

Ali estava Clarisse, sentada em um canto parcialmente escuro, escondida, lamentando-se. Era loira, olhos esverdeados, corpo singelo, de seios pequenos e nádegas protuberantes. Seu rosto sereno exibia as marcas do abuso sofrido. As lágrimas haviam borrado a maquiagem, e a face, antes magnífica, era nada mais que uma mancha de variadas cores.

Não sentia vergonha, era triste. Estava humilhada e ao mesmo tempo em que o ódio a consumia, sorria com o canto da boca. Olhava para os outros três cantos do recinto – onde sombras se faziam passar por pessoas escondidas – e sentia repúdio. Estava prestes a cometer outro crime.

Levou a taça à boca. Cerveja. Não tinha dinheiro para martini, vinho ou qualquer outro destilado. Mas a taça lhe dava um ar superior, daquele jeito que gostava de sentir. Agora não sentia arrependimento. As lágrimas secaram. Retirou algumas moedas da bolsa – já surrada após anos de trabalho – e colocou sobre a mesa. Levantou e andou em direção a porta.

Chovia fino.

Wednesday, January 16, 2008

areia, mar, algas e pensamentos além

é bom sentir a brisa do mar, com os pés cravados na areia, olhando pr'aquele azul que parece não ter fim. dá pra pensar, refletir e perceber tanta coisa que acontece. passo por mais uma prova na minha vida. daquele tipo que eu divido com um "antes" e "depois". pela primeira vez sinto vontade de morar em outra cidade - além de brasília, que não rio branco. a simpatia das pessoas é incomum. a tranquilidade. mas são férias, afinal. de qualquer forma, sendo férias ou não, o mar está sempre ali, aquele vento gostoso - faça chuva ou faça sol - também. esse é o primeiro post do ano, dezesseis dias depois que eu passei de meia noite com o pé direito. e continuo com ele. mas ano passado foi assim também, até o carnaval. eu só quero aproveitar enquanto tá tudo bem. se 2008 me trouxer mais decepções do que trouxe 2007, eu não sei o que esperar de 2009. mas, bem, isso é pra falar só nos últimos dias desse ano que começou a passar. aproveitemos enquanto é tempo. e não só eu que estou na praia. aproveitem o trabalho, a faculdade, façam o que gostam. tenham prazer em tudo o que fizerem, até mesmo aquelas coisas que vocês não gostam. quem sabe assim vocês não sorriam mais e sejam mais felizes?